26 de agosto de 2007

E o mal estar na civilização?

A psicologia e o mundo contemporâneo


Para entendermos a psicologia, devemos ir ao momento em que foi formulada e aí, garimpar por suas origens, propósitos e, principalmente, em que se sustenta.
A psicanálise lançada por Freud conta com uma impressionante formulação metodológica e explicativa, mas em seu texto “O mal estar na civilização” e em sua carta a Einstein, em que os dois dialogam sobre a paz e a guerra, podemos entender suas idéias sob um ponto de vista que extravase a própria teoria. Tomando-os por base, podemos vislumbrar as crenças que levaram Freud a desenvolver a psicanálise.
Seu ponto de partida são as patologias que observa nos indivíduos e que acredita advirem de traumas no processo de constituição do ser social. É exatamente aí que encontramos o mal estar na civilização. Freud defende que para a vida em sociedade, é necessário que os indivíduos abram mão de sua total liberdade, em nome da segurança permanente. Diz que o redirecionamento da libido, antes focada em atividades mais próximas dos animais, permite o desenvolvimento das funções elevadas dos homens, como a ciência ou a arte.
A opressão dos instintos individuais possibilitaria a dominação das forças da natureza , esse primordial inimigo da raça humana (sendo inclusive essa opressão uma de suas formas de dominação). Assim fundamenta o complexo de Édipo, a castração inicial, a primeira poda à libido, a chave inicial que incentiva a repressão dos desejos instintivos em nome de um bem maior.

"(...) a palavra 'civilização' descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos."

Freud acredita e investe todos os seus esforços na perpetuação da civilização. Não há nada tão sublime quanto tudo o que criamos até agora. Portanto, a proteção contra a natureza significa estarmos seguros do ambiente, domando suas forças através das criações tecnológicas advindas da liberação da libido das funções instintivas, como também estarmos seguros contra a violência dos homens em estado de natureza, em que impera a lei do mais forte. Na carta a Einstein, Freud explica: A união faz a força. Para a segurança de todos os indivíduos em igualdade, era necessário que estes se unissem, estabelecendo uma organização permanente que garantisse o balanceamento das desigualdades naturais.
Livres dos problemas básicos, os homens poderiam então, se desenvolver.

"Há muito tempo atrás, ele formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A estes, atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido. Pode-se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. Hoje, ele se aproximou bastante da consecução desse ideal, ele próprio quase se tornou um deus. (...) As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus."

Até então, recebiam tratamento aqueles que apresentavam distúrbios radicais, delimitados pela medicina (psiquiatria) como inviáveis para o convívio em sociedade.
Porém, Freud nota que existe um mal estar, praticamente geral, advindo dos problemas de enquadramento na sociedade, no processo de redirecionamento da libido. Indivíduos que não conseguem abrir mão da liberdade individual em nome de um bem sublime sofrem e apresentam distúrbios, o que ele categoriza como neurose.
A efetuação fundamental da civilização, que oprime para melhorar não conseguia mais ter força, principalmente frente ao cenário de Guerras do começo do século XX. Tudo o que assumimos um dia que seria a realização do paraíso na Terra através do trabalho, parecia não ser verdadeiro. Tal realidade abalava a população e necessitava de um trabalho novo e diferente. É assim que propõe a análise do aparelho psíquico, que avaliaria os momentos em que o dilema se apresenta e como poderia então ser resolvido.

Portanto, Freud parte de uma concepção de norma, assim como toda a medicina e toda a nossa sociedade em geral, que estabelece um modelo como base. Aquilo que foge ao modelo é, em diferentes graus, problemático. Não só isso, mas devem existir maneiras de reintroduzi-lo na sociedade, ou seja, de normalizar o diferente. A psiquiatria, ramo médico, baseia-se no receituário de substâncias controladoras do sistema biológico. A função da medicina é tornar o indivíduo novamente produtivo para a sociedade. Se isso não for possível, que ele seja então confinado. Se não ajuda, que pelo menos não atrapalhe. A medicina possui uma estreita ligação com a normalidade da sociedade; é uma ferramenta.
Freud rompe com este tipo de tratamento, não por seus objetivos, que permanecem os mesmos, mas pelo método de tratamento. Freud se propõe a resolver um problema que não era necessariamente biológico.
Advindo de assuntos relativos à castração, a função da análise é a de efetuá-la categoricamente, descobrindo como o paciente pode reinvestir sua libido e sublimar o mal estar em alguma atividade socialmente produtiva.
Temos agora bastante clara a função da psicanálise e da psicologia, cuja origem é a mesma. Ela tem o papel de levar a cabo o processo de castração. Aquilo que foi falhamente conduzido pela família, deve ser realizado definitivamente pelo analista. O bom analista é aquele que torna o seu paciente uma ovelha obediente, fazendo com que aceite um lugar mesmo sem saber as condições da civilização. O objetivo é reintroduzir o indivíduo potente nesta sociedade, tornando-o uma pessoa conformada.

Fundamental é que isso não seja esquecido. Todo o tratamento psicanalítico tem como fundamento o modelo da civilização vigente como ideal.
A proposta é realmente louvável. Em nome da perfeição coletiva trabalha o analista, tornando aceitável o sofrimento. O homem não vê problema em sofrer, mas em fazê-lo sem motivo.
O que vemos hoje é a expansão do tratamento psicanalítico (não muito diferente em suas bases de qualquer tratamento psicológico). Isso significa que muitas pessoas sentem e não dão conta de lidar com a pressão de renegar os seus instintos, de lidar com o dilema entre o ser social versus o ser individual.
Se o problema se generaliza temos algumas possibilidades para investigar. Podemos pensar que as instituições que deveriam efetuar a castração não estão sendo eficientes. Isso faz sentido se pensarmos na crise da família com a emergência do individualismo. Os pais, talvez já falhos enquanto castrados, não conseguem castrar os filhos, afinal, dificilmente passam muito tempo juntos.
Podemos também pensar que a civilização não oferece recompensas suficientemente valiosas para que os indivíduos decidam sofrer, serem castrados, em nome de algo melhor. Não vêem perspectivas para se inserirem socialmente como seres perfeitos ou em nome dos valores da civilização. Claro que podemos dizer que a questão está muito mais ligada à possibilidade de acesso aos bens do que aos seus valores.
Mas se estamos o tempo inteiro colocando o dilema entre indivíduo e civilização, sempre focado no indivíduo como cerne, por que não também averiguarmos a situação da própria civilização?
Se eu dissesse que tenho certeza de que uma laranja é quadrada. Você acreditaria? Claro que não. Então eu diria que a laranja só não o é, porque ainda é imperfeita e que nós precisamos transformá-la em quadrada. Consigo convencer alguns, que convencem seus filhos e após 6.000 anos, conseguimos fazer a laranja ficar deformada, inclusive ensinamo-la a falar e dizer que é quadrada quando perguntamos. As que não se esforçam por serem quadradas e que não acreditam serem quadradas na verdade, mesmo que as aparências digam o contrário, precisam de tratamento, para que abdiquem de tudo o que são de fato, para que não sejam como são, porque ser redondo é errado.
Parece um absurdo, não? Mas nós fazemos a mesma coisa. Dizemos que tudo o que é natural é errado e que na verdade somos de uma outra forma, uma forma ideal, que pertence ao mundo do imaginário e que só poucos podem ver. Mas nós devemos acreditar nisso, correndo o risco de que alguma coisa aconteça; algo que nem sabemos muito bem o que é. O inferno, a barbárie, a insegurança, enfim. O problema seria a falta de castração ou a necessidade de fazer as laranjas serem quadradas?! As teorias estão sempre certas, é a realidade que está errada?
Ao criar o problema, podemos dar a solução. Ao afirmar que precisamos nos contentar com o mal estar, que ele é preciso, criamos a maneira de resolvê-lo, e os psicólogos ficam muito contentes, com suas profissões em alta. A religião da mesma forma (Bola de Neve é um sucesso... sem mencionar os mais novos cultos 'New Age'). O consumo... Lembrem-se de como é a família da Doriana, será que a nossa própria não é daquela maneira por que usamos manteiga?
Nossa civilização possui uma história, uma genealogia, um viés de pensamento que a estrutura. Por que não questioná-los?
O próprio Einstein nos conta uma anedota a respeito:
Cientistas colocaram três macacos, uma escada com um cacho de bananas em cima, todos dentro de uma sala fechada. Sempre que um macaco subia para pegar as bananas, os três macacos recebiam jatos d’água. Repetida a cena diversas vezes, um dos macacos tentou subir e os outros dois o pegaram e espancaram-no. Assim aconteceu sempre que um subia. Os jatos d’água não precisavam mais ser acionados. Substituíram então um dos macacos por um novo, que ainda não sabia do jato d’água. Na mesma hora em que entrou, foi direto para o cacho, mas antes que subisse a escada, foi espancado pelos outros dois. Os cientistas substituíram mais um dos macacos e depois mais outro, até que nenhum dos macacos tivesse recebido o jato d’água. Mesmo assim, quando um tentava subir, era espancado. Então os cientistas perguntaram para os macacos por que é que espancavam quem tentava pegar as bananas. A resposta foi simples: “Porque sempre foi assim”.

Até quando seremos macacos estúpidos e resignados?
Faço um convite a todos pensarem mais sobre o que é tido como natural e de experimentarem as coisas como realmente são, sem moldá-las segundo nossos ideais seja lá qual forem eles.


As citações são de FREUD, "Mal estar na civilização", edição virtual.

Este texto é baseado na palestra de mesmo título, realizada no "dia do psicólogo".