Prefácio
O presente texto é fruto de uma seleção das partes mais relevantes de uma fita gravada durante o colóquio “A Civilização Conseguirá Iluminar o Sertão?”. Estiveram presente catorze pessoas no Instituto Goethe, trazendo questões que nos ajudaram a esclarecer o tema. Esse texto não tenta apresentar todo o colóquio na medida em que foi um acontecimento único. Inserimos alguns complementos para transformar tudo em um texto coerente.
Tentamos expor um tema vasto de forma clara e sintética. A experiência foi muito interessante, ao ter que desenvolver um assunto não comum a todos. Apesar de seguros no conteúdo, a forma ainda era confusa e preferimos assim, fazer uma conversa não muito formal, diferente de uma palestra, onde todos tinham a liberdade de se colocar.
Refletindo sobre o acontecido, percebemos que alguns temas não foram muito bem desenvolvidos, o que tentaremos fazer melhor agora. Várias dúvidas ficaram no ar, apesar de serem em grande parte exploradas, dentro das possibilidades de tempo e relevância ao tema.
Temos a impressão de que as questões são bastante complicadas e controversas, mas têm uma relevância tremenda no cotidiano. Tentamos abordar de maneira provocativa a civilização hoje em dia, o que está intimamente ligado à vida ordinária das pessoas.
“A Civilização Conseguirá Iluminar o Sertão?”
Civilização
Chamamos de cultura todas as formas (materiais e abstratas) de manifestação de uma maneira de existir. A civilização já é uma de suas possíveis conseqüências. A cultura seria uma maneira intrínseca ao homem de organizar a natureza. A civilização já é um tipo de organização. Pela concepção de certa cultura, seria a maneira plena de existência.
Essa maneira é um continuum estabelecido pela civilização. Não é apenas o discurso, mas a materialidade, as intenções, as instituições, as organizações, os desejos, enfim, a cultura como um todo que atualiza a própria existência dentro das direções estabelecidas.
Pegaremos Freud como emblema do conceito de civilização moderna:
"(...) a palavra 'civilização' descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos."
"Há muito tempo atrás, ele formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A estes, atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido. Pode-se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. Hoje, ele se aproximou bastante da consecução desse ideal, ele próprio quase se tornou um deus. (...) As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus."
"Exigimos que o homem civilizado reverencie a beleza, sempre que a perceba na natureza ou sempre que a crie nos objetos de seu trabalho manual, na medida em que é capaz disso.(...) Esperamos, ademais ver sinais de asseio e de ordem.(...) A sujeira de qualquer espécie nos parece incompatível com a civilização. Na verdade, não nos surpreende a idéia de estabelecer o emprego do sabão como um padrão real de civilização"
"Nenhum aspecto, porém, parece caracterizar melhor a civilização do que sua estima e seu incentivo em relação às mais elevadas atividade mentais do homem - suas realizações intelectuais, científicas e artísticas - e o papel fundamental que atribui às IDÉIAS na vida humana. (...) - suas idéias a respeito de uma possível perfeição dos indivíduos, dos povos, ou da humanidade como um todo, e as exigências estabelecidas com fundamento nessas idéias."
“A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização. (...) A primeira exigência da civilização, portanto, é a da justiça, ou seja, a garantia de que uma lei, uma vez criada, não será violada em favor do indivíduo.”
Seus conceitos baseiam-se em:
Religião judaico-cristã, cujos principais fundamentos são:
1- Deus criador absoluto, eterno e infinito;
2- Deus como símbolo do “Bem”, do poder da Verdade absoluta;
3- Mundo após a morte;
4- Deus como juiz de acordo com a conduta moral;
Assim, Deus está fora da natureza. Deus criador fez o mundo segundo leis, que regem a vida humana.
A história nos mostra que essa concepção normativa começou com o Império Romano adotando o cristianismo como religião oficial. Assumindo o Novo Testamento, com o Cristo redentor que nos livrou do mal, fundou uma nova ética da compaixão e possibilitou um novo começo.
Na Idade Média o poder se encontra sintetizado pelo clero. O que temos é um corpo (prisão da alma) que tende ao vício, e que deve ser purificado pelo comportamento correto. A terra prometida só pertence aos puros e está depois da morte. Isso se encaixa às Idéias de Platão, em que temos o mundo ideal perfeito e o mundo das sombras onde vivemos. Essa filosofia é literalmente resgatada por Santo Agostinho e não se opõe à doutrina cristã, mas se encaixa nela (alguns podem criticar como). De maneira análoga, Santo Tomás de Aquino é talvez o maior estudioso de Aristóteles e traduz tal filosofia ao mundo cristão de sua época.
Saindo da desvalorização do mundo da matéria, Bacon critica Platão e Aristóteles através dos filósofos medievais que acreditavam na compreensão da pureza das essências, e propõe que o homem possa utilizar as forças da natureza para construir na Terra o reino dos Céus.
“Pelo pecado o homem perdeu a inocência e o domínio das criaturas. Ambas as perdas podem ser reparadas, mesmo que em parte, ainda nesta vida; a primeira com a religião e com a fé, a segunda com as artes e com as ciências. Pois a maldição divina não tornou a criatura irreparavelmente rebelde;“
A partir daqui se instalavam as raízes do progresso. Aqui não há contradição entre fé e razão, pois o cientista está desvendando o mecanismo do relógio divino com auxílio de uma linguagem divina: a matemática. A produção de tecnologia dá novos poderes aos homens para a criação do mundo de Deus na Terra.
A impossibilidade desse sistema é superada pela fé em tempos melhores. Aqui a idéia do ser imperfeito com a idéia do perfeito na cabeça se realiza.
Assim, o mundo ficava pequeno. Essa civilização tinha que conquistar novos territórios, seja por um desígnio divino ou econômico de um sistema em expansão. Se Deus é a verdade soberana e única, os bárbaros devem ser civilizados. Esse processo é violento, pois o homem custa a aprender. Milhões de índios foram dizimados por uma força bélica sem equivalentes. Algumas instituições, como as vilas, as igrejas, as catequeses, o trabalho são criadas para disciplinar esse novo corpo que passou a existir. Com o passar do tempo as instituições são reformadas e sofisticadas, dando origem a escolas, hospitais, prisões e sanatórios.
Iluminar é tornar claro, esclarecer. Através do instrumento da lógica, colocar em ordem e explicar o funcionamento de fenômenos. Tem a ver com tornar conhecido. Isso possibilita algum domínio sobre a natureza, o que permite a formação de uma civilização permanente.
Sertão
O sertão não é uma área definida do território brasileiro, mas pode denominar, grosso modo, todo o interior do país. É uma área desconhecida, a ser desbravada e conquistada pelo primeiro que chegar. Aqui alguns Estados (Portugal e Espanha) estavam disputando a posse do novo mundo. O sertão não é o fora, mas a periferia do sistema.
Na tentativa de implantar leis em uma terra diferente da sua, estaríamos condenados a ser ‘desterrados em nossa própria terra’. Somos o espelho quebrado da Europa, nesse sentido o Brasil é o sertão da Europa. Com a implantação de cidades, temos lugares no território brasileiro que vão ser pequenas cópias do velho continente, cercadas de selvageria. Enquanto na Europa o discurso era da liberdade e da igualdade, na colônia vemos o ressurgimento do sistema escravista. A barbárie é recriada nas bordas do sistema para que o centro seja perfeito. O centro pode (e deve) ser perfeito e para isso sua imperfeição deve ser escondida no desconhecido.
As leis que valem no centro não valem na periferia. Ao sermos uma sociedade mal formada, o “homem cordial” age favorecendo os laços afetivos. Isso destoa da civilização, onde há uma lei geral. O sertão só é uma ‘terra sem lei’ pois têm uma lei própria, que existe e funciona, diferente da ideal trazida do além-mar. “Aqui embaixo, as leis são diferentes”. O sertão narrado por Guimarães apresenta leis como a da honra que funcionam com as armas que vêm de fora. Quantas cabeças de gado para comprar uma arma? Até a década de 60 não havia polícia em Morro da Garça e as questões eram resolvidas, de alguma forma
Sérgio Buarque acreditou que as ‘Raízes do Brasil’ seriam superadas pelo processo de modernização. Getúlio Vargas vai se apoderar dessa idéia de sertanejo para constituir o típico brasileiro. O brasileiro só pode vir de dentro, do coração do território. Isso seria autenticamente brasileiro. Miscigenado e com uma vida simples. O diferente também faz parte.
Onde seria a capital desse novo país? No coração do planalto central (em oposição a uma ocupação costeira que existe até hoje) nasceria o símbolo desse país. O Brasil seria um centro, pois até então ele foi um apêndice da Europa. O rompimento com a metrópole seria o início de um desenvolvimento próprio. Esse centro só poderia ser de uma nova arquitetura para um novo homem: o moderno. Assim também o samba que era desprezado desce o morro e vira bossa-nova.
A arquitetura moderna de Brasília é o símbolo máximo desse projeto humano. Se as cidades nasceram em rotas de burros, essa seria totalmente planejada pelo homem. A linha reta é sempre arquitetural pois é feita pelo homem, que se impõe frente à natureza. As cidades (símbolo máximo burguês) poderiam ser feitas com consciência, e não meramente reformadas. Livrando-se da natureza e do passado, o homem chega cada vez mais próximo do reino dos céus, da ordem divina.
Porém, com a decadência do ocidente, fica cada vez mais difícil de entendermos a glória de tais ideais, antes explicitamente valorizados, que foram as forças construtoras do espaço em que vivemos.
O subdesenvolvimento do Brasil não pode ser superado nesse plano, pois é o outro lado do desenvolvimento. A dependência tecnológica que não pode ser superada recria a dominação colonial.
Rumo a um sistema sem centro
No processo histórico do século XX, vemos uma maior intensificação na generalização dos moldes de desenvolvimento. Todos querem chegar ao mesmo lugar e, aparentemente, aprenderam como.
Com a Guerra Fria, efetivamente o poder centralizado na Europa se desloca. No fim deste evento, uma guerra também ideológica, constitui-se uma nova ordem mundial, de interdependência generalizada, não mais com uma metrópole irradiadora de decisões, mas com uma teia que necessita de jogadores preparados, que não queiram sair da competição.
Podemos então, pensar em um mundo em processo de descentralização. O mundo se mantém em paz entre os países, porque a cultura foi disseminada. Temos o cinema como um instrumento poderosíssimo de transmissão, muito mais acessível do que a literatura.
Com a criação da ONU, temos um contraste grande em termos de violência comparado com o passado. Hoje, apesar das guerras existentes, o processo é mais ameno. Pode sê-lo porque os rebeldes são cada vez em menor número e apresentam cada vez menos riscos. Os processos são simultâneos, porém não homogêneos. Ou seja, lugares diferentes do mundo, ainda lidam com problemas de modernização, em diferentes graus. Mas são afetados também pelo processo atual de globalização.
A descentralização significa expansão e interiorização. É como uma escola: doutrinamos as crianças com a disciplina de aprendizagem, duramente no início, se é que não interiorizam ou não repetem a forma correta. Quando, enfim, estão maduros o suficiente, podem então desamarrarem-se dos mestres, vivendo sozinhos sob tais preceitos, inclusive ensinando aos outros. Tornam-se novos embaixadores.
Por isso, a violência, entre os disciplinadores e os disciplinados pode ser cada vez menor. Porém, entre os disciplinados, existem os que estão mais ou menos inseridos e assim, emerge a violência dentro do próprio sistema, daqueles que não conseguem se enquadrar.
Enquanto na Europa as matas são recompostas, no Brasil, o que era pasto se torna eucalipto, voltado para a produção de carvão e aço. Produtos que irão pagar o preço da dependência tecnológica. Esse processo é antigo e ocorre simultaneamente à chegada das possibilidades urbanas quase plenas em pequenas cidades do interior. O ideal do povo é o mesmo. Nos projetos de migração de nordestinos para São Paulo, realizados pela então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, os migrantes chegavam até a metrópole em busca do que a cidade oferecia (emprego, consumo, etc), mas que hoje pode ser encontrado em suas próprias terras.
A lógica do centro não é apenas econômica, é uma lógica de transmissão de conhecimento e desse conhecimento iluminista; um processo que leva tempo. Para entrar no jogo econômico, é preciso seguir as mesmas regras. Mão-de-obra qualificada e infra-estrutura apropriada. Com a nova configuração tecnológica e infra-estrutural (rodovias e telecomunicações), a migração não é mais tão necessária. De qualquer forma, mesmo saindo, estão preparados para entrar na lógica predominante. Em Morro da Garça encontramos universidades virtuais.
Cada um é uma peça e todos têm a mesma formação cultural, estando aptos a fazer parte da civilização. Claro que existem os que não têm acesso, mas ainda assim, compartilham dos mesmos ideais.
Einstein nos ilustra a formação de paradigmas com sua anedota a respeito dos macacos e dos jatos d'água. (Narrado em "E o mal-estar na civilização?")
O importante para a civilização não é saber por que, mas como fazer.
Estamos passando de uma visão de civilização que reprime, para outra que constrói as pessoas.
Quem domina está no ideal. Quem é dominado está no ideal do ideal.
É a possibilidade de todos ascenderem, portanto, é a possibilidade de cada um, como centro, tronar-se melhor. A elite está tão doutrinada quanto o povo, mas a elite concentra mais poder.
Num mundo 100% cartografado, jogar a sujeira para as bordas tem um limite, inclusive ambiental. Ao mesmo tempo em que recusam, muitas vezes violentamente, os dejetos da pureza, em determinado momento esse outro, encontrado pelos europeus, consegue reivindicar seus diretos enquanto tal. O discurso da diversidade emerge depois do pleno domínio da civilização.
Podem assim virar atração turística. Caracterizando e categorizando tipos excêntricos, assumimos a mesma lógica de um zoológico. Sua selvageria foi domesticada e não apresentam mais perigo. As histórias que eram modos de vida, contadas cotidianamente, hoje em dia, no mesmo lugar, as pessoas agora decoram as histórias sobre elas mesmas.
No mundo incorporado, sem ter mais para onde jogar a imperfeição, o mal continuará aparecendo, mas agora, dentro do paraíso civilizado.
Assim, ainda acreditando no projeto civilizatório de purificação, começam a elaborar políticas de higienização, pedindo mais civilização. É o caso de “Tolerância zero” em NY ou os vidros blindados e escuros dos carros, cercas elétricas, câmeras... A civilização deve ser para todos e não pode acabar onde acaba o seu mundo.
O poder do individuo não é só social, mas também material. Assistimos à criação de sistemas que necessitam de muita energia para o consumo de alguns (que vivem como reis).
Dentro da lógica capitalista, é difícil barrar o consumo. Isso porque não conseguimos entender por que deveríamos, já que todo o processo produtivo ao mesmo tempo em que é mundialmente interligado, é fragmentado para o consumidor. Aceitar um produtor é aceitar toda a sua cadeia produtiva. De outras formas, os próprios indivíduos satisfazem suas faltas neste mecanismo de eterno preenchimento.
De volta ao Sertão
Queremos a força do sertanejo e não suas características admiráveis. Nem o romântico e nem o pessimista. Nem o sertão puro, nem uma área a ser civilizada. Será que existe um plano de encontro fora desses conceitos? Onde está o plano de geração desta realidade?
Tentamos eliminar o desconhecido, o mapa fechou. Tentamos domar o inconsciente para descobrir que o sertão está dentro de nós.
Devemos pensar no sertão por dentro do serão e a civilização por dentro da civilização. Enxergar o sertão tal como nós imaginamos que Rosa o tenha visto.
O final do conto “Recado do Morro” mostra o espírito sertanejo. Pê-Boi, o Rei dos gerais é vítima de uma cilada por ter violado a lei local. Ao matar os seus traidores, ele se vê incriminado tanto na lei local como na lei da cidade. A única alternativa é escapar para os Gerais, o sertão do sertão. Como colocou Arthur: “eu sou sertanejo e ninguém vai me pegar se eu não quiser”.
Existe um sentido que é incapturável, que permanece diferente mesmo estando dentro. Na obra de Rosa existe algo que vai além da caracterização. É a própria vida do sertanejo, para além das manifestações materiais e para além dos conceitos: é o mistério, o desconhecido que ainda e sempre irá se expressar. Se “o sertão está em toda parte” e “o sertão está dentro de nós”, não podemos deixá-lo morrer, ou pior, virar uma estátua, ou pior ainda, logotipo de camiseta. É preciso vivê-lo, dentro e fora da civilização, simultaneamente, como uma cultura nômade de solo, que está nas entrelinhas, não pelas suas formas, mas por sua força! Pela crítica de um sistema supostamente sem deuses. Sem verdade ou mentira, sem erro ou acerto sob qualquer aspecto metafísico. Nem o bom selvagem, nem o lobo do homem. Que os sertanejos descubram o que é!
Bibliografia:
BACON, Francis “Novum Organum” e “Nova Atlântida”
CORBUSIER, Le, “Urbanismo”
DELEUZE, Gilles “Post Scriptum sobre as sociedades de controle”
Dezmilplatos.blogspot.com
FOUCAULT, Michel “Microfísica do Poder”
FURTADO, Celso “O Mito do Desenvolvimento Econômico”
FREUD, Sigmund, “O Mal-estar na Civilização”
HOLANDA, Sérgio Buarque de, “Raízes do Brasil”
MOURA, Carlos A. R. de “Nietzsche: Civilização e Cultura”
PLATÃO “Diálogos”
ROSA, Guimarães, “O Recado do Morro”
---------------- Dicionário Larrouse
O colóquio foi apresentado por Arthur e Pedro, no dia 4 de agosto de 2007.
13 de setembro de 2007
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