Partida
Era de manhã cedo, sábado 2 de junho de 2007. Após cruzarmos São Paulo pela Fernão Dias chegamos ao estado de Minas Gerais. Éramos transportados por ônibus, um automóvel incômodo que é lento para os que querem chegar e rápido demais para quem quer viver o percurso. Permite apenas algumas observações pontuais sobre o que é visto e ao mesmo tempo nos coloca em reflexão, quando não em sonolência.
Logo na partida, Pedro e eu começamos uma densa conversa a respeito do futuro, caindo enfaticamente sobre a engenharia genética. Eu tinha a intuição de que a viagem havia começado mesmo antes de entrarmos no ônibus e aquele assunto teria grande importância durante aquela semana que se iniciava. Antes de resumir a conversa, vale a pena mencionar algumas de minhas questões que compunham aquilo que se iniciava com maior densidade.
Primeiramente, o tema “sertões” estava recorrente em minha vida. Euclides da Cunha me despertou algo, que foi plástica e fantasticamente explorado por José Celso em sua maratona teatral entitulada de “Os Sertões”. Me propunha a explorar essa vida outra, que “está em toda parte” e ao mesmo tempo é invisível. O substrato sempre foi a ligação com as forças da natureza, algo que sentia ter perdido e que com muito esforço conseguia vislumbrar. Em mim, carregava o conflito com a civilização e tudo o que traz consigo, algo grande que torna o ser humano distante de suas potências. Cruzavam meu caminho Freud com seu “mal-estar na civilização”, Nietzsche, Spinosa, mas acima de tudo um incômodo profundo em mim mesmo, com os meus arredores e companheiros.
De volta às poltronas, sentados e nos movendo em alta velocidade, analisávamos a defasagem que existe entre a ciência dura e as outras ciências, um imenso distanciamento entre as práticas e o conhecimento. Enquanto discutimos a pós-modernidade, a linguagem, etc, a tecnologia avança sem limites. Por mais que hoje em dia, as discussões epistemológicas estejam em alta, a fragmentação do conhecimento permite que uma confusão ética não iniba o desenvolvimento tecnológico e então, como uma adolescente rebelde, a ciência caminha inconseqüente. Com o estado de coisas atual, estaríamos, então, entrando em um terreno delicadíssimo, em que o controle sobre os efeitos do que produzimos é cada vez menor, ao passo que seus resultados são cada vez maiores. Até hoje, foram enormes os avanços na tecnologia física e química, que produzem resultados que são até certo ponto controláveis, pelo menos a curto prazo. O desenvolvimento industrial trouxe consigo seus problemas, como a poluição, o aquecimento global, a crise energética. Como foi ao longo da história, surgem problemas e conseguimos remediá-los, mesmo que sofrendo muito para isso. As soluções trazem consigo novos problemas que necessitam de soluções que trarão novos problemas e assim sucessivamente. Para a atualidade, seguindo a tendência principal, a nova tecnologia é biológica e é o caminho para continuar o desenvolvimento de nossa cultura e eventual espécie. Com a engenharia genética produziremos efeitos cujas conseqüências não temos a menor possibilidade de prever, já que as mutações produzidas, em meio aos 90% de DNA lixo (que parecem não ter qualquer função), serão transmitidas descontroladamente para as gerações futuras, com misturas inimagináveis. Estaríamos abrindo a caixa de pandora?
Creio que este é um mecanismo sem fim e a questão é avaliar os resultados. Caso decida-se que as coisas não estão boas, a única possibilidade é mudar tudo, incluindo aí, uma visão de homem e sua visão de mundo. Caso contrário, estamos fadados a continuar investindo em soluções para os efeitos do problema. É relevante colocar na discussão quais os problemas, já que muitas vezes percebemos que só nos incomodamos, porque não estamos por cima da situação. O que incomoda não são os fundamentos, que geram subdesenvolvidos e sim nós, que estamos subdesenvolvidos.
Ao final do dia, ainda no ônibus, o assunto retornou, entrando já em questões mais práticas, em casos exemplificáveis, mas que não alteram o teor da crítica. A decisão é uma: mudar ou melhorar.
O Caminho pra lá do morro
Paramos para o almoço, tipicamente mineiro, saborosíssimo. Arroz, feijão, farofa, costela de porco, frango com quiabo, frango ao molho, romeu e julieta.
Depois, uma conversa com um senhor de quase 80 anos, pai do Chico, o dono do lugar. Entre muita metafísica de vida, lições existenciais, conselhos genéricos como, por exemplo, os poucos amigos que temos de verdade, a necessidade de humildade na vida, de alegria, afinal, todos temos problemas, o dever de olharmos sempre à frente, nunca desistir, entre outros, o senhor comentou um pouco sobre como surgiu o restaurante. Fruto de uma visão empreendedora, em que montara uma venda no terreno rural, que começou como um pequeno bar para os locais, o lugar foi crescendo, o dinheiro entrando e hoje podiam gozar a vida com tranqüilidade. No passado, aquele homem havia sido vereador, imobiliário, especulador, enfim, um capitalista. Não nos moldes industriais, mas à brasileira. Tinha terra e visão de modernidade, de futuro direcionado.
Mais tempo de viagem, paramos em um outro restaurante de estrada, que assim como o anterior, possuía ares bucólicos, o tal do “bom gosto” e um pouco de comida típica, misturada à industrialização. Isto é importantíssimo: a industrialização (no caso, na alimentação) penetrou toda parte, inclusive a cultura tradicional. Por mais que as receitas permaneçam, os processos já são muito diferentes, contando inclusive com ingredientes vindos de muito longe. Portanto, é inútil procurar pureza, nem no passado, nem no presente e nem no futuro, porque isso não passa de uma romantização da realidade. Talvez mais do que constatações, a viagem trouxesse desconstruções ferrenhas, que chacoalham as estabilidades e em seu lugar, colocam dúvidas e incertezas. Insuflam mais vida em nossos pulmões.
Já à noite, passamos por Belo Horizonte e, em seguida, por usinas à beira da estrada que se mostravam com enormes labaredas, galpões e caminhões. A sensação era apocalíptica. Era evidente um processo agressivo, mesmo que não possa dar detalhes à respeito.
Chegávamos ao nosso destino, Morro da Garça, centro geométrico de Minas e quem sabe, outros também. Os ares eram outros, frescos, frios. Direto para o alojamento (o centro cultural da cidadezinha), jantamos uma espécie de caldo, parecido com o que chamamos de vaca atolada, feito de mandioca e carne de boi. Saímos para interagir com o lugar. Entrementes, Fátima, esposa do prefeito, loira, distinta, falava com esmero, uma admirável anfitriã. Ela voltaria a aparecer diversas vezes ao longo da estadia. Sua grande vontade era fazer de nossas visitas momentos muito agradáveis e de nos deixar felizes.
A cidade se preparava para a Festa da Lavoura, o maior e mais tradicional evento, com carros de boi, cavalgadas, cantorias, shows, desfiles, etc. A praça central era cada dia mais decorada e muitas barracas, feitas de palha, eram montadas.
Fátima nos apresentou a cidade em uma pequena volta, explicando que muito da renda advinha da pecuária leiteira e que as pessoas da cidade eram em grande parte empregadas pela prefeitura.
O forró era muito alto, a toque de caixas de som, volumosas. Preferi o boteco com os violeiros. Orangotango era o nome. Nele, diversos bebendo bastante e tocando violão com acordeão e cantando. No luar cheio, nos chega um rapé picante, descongestionante, estímulo ao espirro. Nisso, puxam conversa e o papo, por mais que desconexo, foi uma grande aproximação. Uns convidativos, outro, crítico, me alertou, “são poucos os que aqui sabem o que é o sertão”.
Uma volta - percepções
Na manhã seguinte, caminhamos pela cidade e por acaso chegamos a uma pequena quadra coberta em que estava instalada uma feira de roupas. Olhando nas etiquetas, “Made in Brazil”. Os donos, eram de uma loja com várias filias por Minas e Goiás, chamada “Lojão do Brás”. Roupas produzidas em São Paulo, no Brás, com mão de obra boliviana?
Logo ao lado, uma humilde casa, fogão à lenha do lado de fora, preparando o almoço. Um mamoeiro cortado quase na base e a mulher que cozinhava me disse que alguns bois vêm à noite e comem as plantas alheias. Perguntei-lhe se poderíamos comer o boi e ela riu. O boi não pode. Em sua pequena horta, misturadas plantinhas, ervas e temperos. Disse-me que costumavam preparar chás para curar doenças e eu perguntei onde estavam as plantas. Ela me disse que havia uma horta medicinal comunitária feita pelas crianças da escola e que qualquer um poderia ter um pouco do que precisasse, bastava pedir.
Pela cidade, ruas de terra, verde e laranja, ao fundo o Morrão, nas casas mandiocas, bananeiras, temperos, urucum, genipapo, jabuticaba. Micos (sagüis), periquitos, anus, joãos-de-barro, maritacas. Algumas casas tocavam violadas, outras, funk carioca.
A casa de cultura realiza um projeto com jovens contadores de histórias. Eles decoram textos de Guimarães Rosa e reproduzem as histórias, com interpretações, no mínimo oratórias. Um grupo realiza excertos de “O Recado do Morro”, focado principalmente na transmissão do recado entre os personagens da história. Os jovens se caracterizam com roupas, entonações, fisionomias e diálogos e caminhando pela cidade recontam a história. É uma atividade muito interessante, encantadora. É uma pena que para a maioria, a literatura se resuma a decorar contos.
Mais tarde tivemos uma conversa com o Prefeito Zé Maria, com um sagaz professor de biologia, Giovani e com a diretora do colégio e geógrafa. Em meio a diversas questões práticas, latente minha inquietação que se ligava totalmente ao que Giovani brevemente falara: como se dá a relação entre a valorização das tradições, o resgate do conhecimento sertanejo e a pressão da modernidade. As respostas foram dadas por Fátima, que contou os projetos que existiam. É engraçado, mas o tempo todo vejo essa resistência pelas abstrações, que permitem relacionar os fatos. Parece que temos que ficar o tempo inteiro presos à realidade, que para mim, é pura realização destas loucas abstrações.
O foco principal das ações da prefeitura era a melhoria básica das condições para a vida da população, sendo elas o aumento da renda, a melhoria da saúde e da educação. Acima de tudo, elas visam o aumento da auto-estima, ou seja, a valorização da cultura tradicional e dos valores locais, que têm ganhado importância atualmente devido ao turismo. Querem fazer com que as pessoas fiquem na cidade, com que não desejem sair para as grandes cidades. Para isso, é preciso criar o que fazer na cidadezinha, coisas que atraiam os jovens, em comparação com a bombástica cidade grande.
Se voltarmos à idéia da industrialização infiltrante, não é então a cidade que perde interesse e por isso as migrações diminuem, mas a urbanização que se dilui e penetra nos interiores. As facilidades da urbanidade estão agora em toda a parte e a valorização local só se dá em função da cidade. Não é mais preciso sair, ela vem até você.
Em uma conversa com Lidiane, uma das contadoras de história, simpaticíssima e estudante de Letras junto com o professor Dieter, constatamos uma interessante diferença entre as relações dos indivíduos e do coletivo, principalmente nas formações familiares. Existe lá uma relação íntima ainda forte, em que todos se conhecem e sabem com detalhes uns dos outros. As notícias correm rápido e a família tenta se agregar frente ao desmantelamento moderno da família nuclear. Chamou-me a atenção que lá, a família não é nuclear, mas horizontal, ultrapassando as residências e incorporando laços de parentescos mais distantes e inclusive de amizade. Nas metrópoles, torna-se possível o isolamento e a autonomia individual, mesmo que apenas aparente, ao mesmo tempo que se torna bem fraco o entendimento da interdependência entre as gerações e entre as funções sociais e vidas pessoais.
O que digo sobre a urbanidade fica evidente na arquitetura, “qualquer lugar no Brasil”, quase pré-moldada, barata, de laje batida, janelas de ferro ou alumínio e paredes rebocadas.
Ainda assim, a luta pela valorização das tradições, mesmo que sem muita consciência da amplitude do processo de modernização global, é um esforço enorme para possibilitar a criação de valor.
Mas o que é valor? Para meu amigo Pedro, são problemas de falta de rigor nos conceitos, o que não ocorre nas ciências duras e por isso elas funcionam. Para mim, é muito mais, algo que beira a visão de mundo em seu caráter prático. Vejo que trabalho imaterial existe e sustenta, gerando o progresso da vida como está, o eterno colapso. Ainda podemos ver alguns sertanejos, que bebem muito, que recordam suas tradições que ficam cada vez mais distantes de suas vidas práticas, tornando-se mero foco de apreciação excêntrica, que gera renda e permite viver. Em forma sutil, os efeitos são os mesmos ao redor do mundo, variando apenas em intensidade.
Da mesma forma, sentados em um grupo, à noite, percorrendo a cultura paulistana, tentávamos decifrar, ou encontrar, nossas tradições, uma tarefa nada fácil. Passamos por lendas urbanas, os fluxos, o trânsito, a tecnologia, a velocidade, a simultaneidade, a música: hip-hop, rap, samba? No bar, uma roda de samba com pandeiro. Algumas letras mencionavam Copacabana, Ipanema, Itapuã. São Paulo ficou por conta de Tom Zé. A cultura cosmopolita da cidade grande ainda é bastante vaporosa. Mas lembra uma copa sem raízes, um polvo sem cabeça.
Carvão
Pela manhã fomos a uma carvoaria. Percorrendo imensas plantações de eucalipto urofila, chamadas de “reflorestamento”, pastagens e algum pedaço degradado, chegamos a um campo aberto, com uma enorme fileira de iglus de barro, como gigantescos cupinzeiros e alguns homens por perto. O primeiro, de forno em forno, jogava lama para vedá-los. Outro colocava madeira de precisa maneira no interior das cápsulas que tinham apenas uma entrada; uma redoma negra por dentro que se enchia. Quando cheia, outro fechava a entrada, vedando-a novamente. Antes disso, colocava fogo e por estar devidamente lacrada, surge carvão em vez de fogo e cinzas. Algum tempo depois, cerca de 2 dias, o forno era aberto, o carvão retirado. Trabalho duro, muita fuligem, muito desgaste, pouca remuneração. Por pior que parecesse aos meus olhos, diziam-se alegres e satisfeitos, era uma escolha, mesmo que com escassas opções.
Parênteses
Lá a vida é prática. Resolvem-se problemas cotidianos criativamente. Problemas práticos.
Claro está que, como na literatura, a realidade e a ficção dificilmente se distinguem. Passado, presente, futuro se traspassam, se permeiam e ainda assim, flutuam na imaginação, num roteiro incoerente, porém sólido.
Ao dizer, falta o espaço. Falar é uma arte, a arte da seleção, que consegue em si criar realidade. A rede que sustenta o ato, o modo de vida, permanece esticada e muitas vezes isolada do que entretém. Como é, sempre será o que é, um atributo e nunca outra coisa além do que é.
O pensamento parece servir de conforto para aliviar o peso de viver o presente. Enquanto isso, segue o rio da vida, implacável e irônico.
Sertão e civilização
Foi Cordisburgo, em um quintal, casa de Guimarães Rosa quando pequeno, de frente para a linha férrea, casa fina e rica, de comércio, que se assentou em mim mais uma questão. Ao sertanejo, homem tranqüilo e conversador, perceptível, maleável e questionador, não falta. Há sempre alguém que o sustenta. Não é assim que funciona a civilização? Alguns que se doam em nome de outros para que estes consigam realizar algo relevante por todos, o trans-homem? No mínimo duvidoso.
Alegria
De volta ao Morro da Garça, fim de tarde. Há motivo para ser alegre. Não é exatamente o que se possui, mas o ser possuído, viver a vida como ela vive, alegria da natureza em existir simplesmente: maritacas, pombos, bem-te-vis, pássaros pretos; palmeiras enormes, bromélias, árvores únicas que não saberia dizê-las. No horizonte, paisagem, amplitude, expansão. O mundo derramado num céu claro sem impedimentos. Sem perceber mesmo, no assim viver. Canta-se mais, ri-se mais, vive-se mais. Mesmo que o trabalho seja duro, os acontecimentos amargos, o ritmo é suave, a atmosfera, permeante celular, é leve e tranqüila. Para quem tem os óculos de Miguilim, tranqüila até demais, entediante, sem graça, monótona, sem ter que fazer, mas ainda assim é tranqüila e leve. E os dias passam. Passam como num sonho que descansa o corpo, que faz do sofrimento um ser etéreo e faz a imaginação muito mais concreta.
Um mergulho no turbilhão – uma visita aos pensamentos
Modernização, modernizações, invasão, migração, transbordo da emoção e do consumo, permear, rigor, homem, natureza, natureza-homem, paisagem, gigantes incrustados, impacto, convivência, tempo. Espaço-tempo. Tempo.
Sétimo dia de viagem. Como fizeram os desbravadores, desvendamos o desconhecido, mansamente chegados, sendo tocados e transformados por uma natureza-vida que satura a pele, invade suavemente o corpo e carrega, como o olhar de encantamento de quem vê e sente o entardecer como único acontecimento.
Assim é quem se liberta do cotidiano e se abre ao afeto, disposto a transformar seu mundo enquanto constrói o mundo. E é desse jeito que vejo estes chãos, uma terra que envivesse, mas é pisada com descaso, que se coloca aos pés dos homens, que ora arrogantes, ora ingênuos, impulsionam suas vidas em nome de intuições que extrapolam explicações. Imperceptível, presenteia as mudanças como pode, sempre dando e nunca recebendo, a não ser seu próprio corpo, contaminado por sua própria vida que se tornou uma mazela.
Ainda que coletivamente, compostos uns com os outros, em comunidades fraternas, de que adianta, se despercebem o extra-humano, o que sentimos e não sabemos, o sertão? Será que é possível sonhar-se com liberdade sem estar-se imerso no rio que dilui as paredes de concreto, os bloqueios de granito empilhados, as veias de asfalto hipócritas que circulam perversões que atormentam as almas das gerações nascentes?
Não são as coisas que vejo que me torturam, mas saber por que elas existem, tendo a certeza de que a concreta expansão que encerra o planeta isola tudo cada vez mais. Entretanto, o isolamento não é físico, nem metafísico. É uma física sutil, física fluídica, que contém barragens intransponíveis pela lógica do raciocínio, que se coloca incessantemente em desacordo com os impulsos de vida.
Há quem pense que a ignorância leva a ações incoerentes, destrutivas, maléficas. Mas de qual ignorância falam? Quem tem a certeza das conseqüências de suas ações? Quem pode realmente garantir suas certezas sobre o mundo que realmente existe e é dinâmico? Creio que a ignorância é a ação que vai contra a intuição, o discurso que vê em tudo a si próprio, que se enrijece e perde o jogo da vida, a ação determinante e não a determinada. Parece que me desviei do que comecei a dizer e preciso voltar para o mundo que às vezes me solta e me permite voar.
Como muitos dias não foram pintados no papel com tinta, não vale o esforço de colocar em pormenores tudo o que aconteceu. Talvez consiga rememorar algumas coisas que criam relevos em minha imaginação sobre o tempo que estive ali.
Recém chegado de Três Marias, cidade construída pela barragem e sua chegada, pouco descobri pelo pouco tempo que fiquei. É o Rio São Francisco em seu início, barrado, que trouxe dinheiro e assim desenvolveu um pedaço de terra em 40 anos. Dieter chama-a de “cidade sem infância”, por ter sido lá implantada, já aos moldes modernos, sem desenvolvimento, sem tempo. A não ser que pensemos em sua formação dispersa, um núcleo que concentra histórias. Com certeza é um espaço sem infância, sem rugosidades, sem acúmulo material de história. Parece-me que o início da construção foi determinante para seus dias atuais. Além desta frase óbvia, quero dizer que o capital surgido naquela época é o alimento para a cidade nos dias de hoje. Com o rendimento, nascem inúmeras lojas, vendas, mercados, etc. São apenas intermediários no serviço, gente que, segundo Marx, não gera valor. Assim, a cidade acontece através da diluição capitalista, da circulação e da alta rotatividade. Se é apenas o lucro da venda que aparece, há algo de estranho na prosperidade do lugar, ou nas teorias que a explicam. Afinal, é inegável que as pessoas têm dinheiro, este advindo quase que exclusivamente do comércio, além de uma outra quantia vinda dos trabalhadores da barragem. Valor e dinheiro parecem poder caminhar independentemente, já que vivemos num mundo mais ilusório do que real e o dinheiro é a explicitação deste fato, um papel, ou um número em uma tela que move montanhas.
Às margens do Velho Chico vive-se da pesca e do transporte por voadeiras. Por toda parte explodem preocupações ambientais, claro que ligadas à qualidade de vida do homem. Em alguns casos, cai-se no outro oposto, que é a isolada reprodução da "natureza".
A esse respeito, quando visitávamos as grutas na região de Cordisburgo, pensei. A gruta do Maquiné possui uma impressionante infra-estrutura turística, com muitas alterações em seu interior, como pontes, cimento, iluminação e passagens. É feita aos moldes de um parque de diversões, como o ecoturismo atual. Porém, existem outras 300 grutas na região, pouco e às vezes nem conhecidas. Seria a solução construir fantasias que distraiam, enquanto a realidade permanece oculta para muitos? É uma possibilidade. Mas e os lugares únicos? E os alternativos? E a expansão? Esta é a mesma lógica das áreas de conservação, incluindo aí a exploração de matéria-prima. De qualquer forma, a maior parte está aberta e são minúsculas minorias que conseguiriam estar escondidos ou controlados, ainda que as metas do milênio sejam exatamente estabelecer uma relação saudável com o ambiente (transformado). Surgem com muita força grupos, pessoas, ONGs que se ocupam da cobrança das regras a serem seguidas.
Conversas
Na quarta-feira, conversamos com duas pessoas de vital importância. O primeiro, Padre Leite. Este sujeito possui um museu em sua casa, uma das maiores do Morro da Garça. Claro que vinha de uma família riquíssima fundada no comércio; uma venda que trazia dos centros, diversos produtos. Por mais que o trabalho estivesse voltado para a própria família, era nítida a importância histórica do lugar. Eram fotos, instrumentos, móveis, equipagens, conversas que traziam para os dias de hoje a vida de outrora. Num desenvolvimento progressivo e linear desta história, resgatar os passos anteriores é importantíssimo. Na verdade, ainda não sei exatamente o porquê, mas creio que é uma maneira de aprender com o que já foi, uma memória de futuro e, quem sabe, conseguir compreender o presente como processo. No mínimo serve para tardes tristes e nostálgicas.
Via-se que a modernização tem raízes antigas e a sua chegada vem com objetos: relógio de bolso, revólver, instrumento musicais, enfim, coisas que vêm de longe, das indústrias do velho mundo. Aí estava seu princípio, assim como os pequenos capitalistas, donos de venda. Mais do que ir para fora, é trazer de volta o que há lá fora. O emblema do homem honroso, virtuoso, que conhece o mundo e traz sua experiência para a pequenez de seus campos. Mas antes, que amplitude! A novidade é uma arma silenciosa, que emociona e envenena lentamente. São sempre pessoas respeitadas e o são também por serem estudadas. Vejo estes detalhes como aperitivos, que criam a fome de possuir e de, em última instância, fazer de seus lugares tão encantadores e fantásticos quanto a imaginação do que há do outro lado do morro.
A outra conversa, talvez a melhor de todas, foi com o professor de Biologia, Giovani, que vive, segundo suas palavras, num tênue limiar entre a realidade e a loucura. Mecânico por prazer, o homem foi além e aprendeu muito com as suas andanças pelo mundo. Preocupado com o tempo atual, tinha a questão da tradição, da simplicidade de vida, de outros valores além do reconhecimento financeiro e do entretenimento, da medicina popular em contraposição à educação informativa. Ao interesse dos jovens dirigido ao consumo, da produção e do consumo desenfreados, do desenvolvimento sustentável impossível, dos impactos naturais causados, em grande parte, pela ignorância e pelo desconhecimento. O fim da seleção natural, mas a força da resistência do meio, que naturalmente segura o desequilíbrio, a competição entre entretenimento e a educação e a falta de certezas, que não tem como dar chão nem respostas fundamentais aos alunos, a profissionalização acéfala e autômata do ensino, uma crise total. É uma pessoa que vive o sertão, ligado ao que está acontecendo, alguém que não reproduz informações, mas compõe seu pensamento.
Para extravasar, fomos mais tarde ao baile.
Pela ponte
Navegamos por imensidões de eucaliptos, gigantescas plantações, fonte de renda, combustível econômico que introduz no povo a vida urbana como possibilidade real, com toda a sua plástica envolvente.
Enquanto nos pequenos povoados as pessoas eram identificadas por suas histórias, afazeres, nomes e personalidades, na urbanidade a identidade é plástica e mutável, maleável e comprável. Talvez isto esteja relacionado à amplitude da vida cotidiana que girava em torno daqueles que se conheciam entre si e que agora se expande ilimitadamente, com fofocas sobre aqueles que são conhecidos, mas não fazem parte da vida cotidiana, não estão presentes e assim, qualquer acontecimento do mundo é uma preocupação para todos.
Ao viajarmos pelo sistema global, perdemos a praticidade, carregando todos os problemas do globo em nossos ombros. Será que vale o sacrifício? Talvez sim, já que o sistema econômico sustenta as transformações e as ações locais e vemos nitidamente que os lugares pequenos ou sobrevivem do turismo, artesanato, ou da produção de matéria-prima, evidentemente sempre dependentes do fluxo e da circulação de capital vindos de fora da cidade.
Ao mesmo tempo que os antigos modernos entram no interior, a expansão urbana, as facilidades dos transportes e da terceirização, “J.I.T.”, preserva-se um modo de vida bastante diferente da metrópole, com relações muito mais humanas e pessoais. Acredito que São Paulo do começo do século XX também fosse assim. Podemos pensar que são problemas populacionais e a cidade grande só funciona transformando cada um em cifra, para construir uma lógica que flua. A velocidade só existe num sistema objetivo, sem dúvidas, que só é possível com o império da razão, concretizada na técnica maquínica. Deus me livre! E o resto?
P.S.: Esse texto foi resultado da formalização do diário de uma viagem de campo ao interior mineiro, na região acima de Belo Horizonte até as margens do Rio São Franciso.
23 de julho de 2007
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