13 de setembro de 2007

A Civilização conseguirá iluminar o Sertão?

Prefácio
O presente texto é fruto de uma seleção das partes mais relevantes de uma fita gravada durante o colóquio “A Civilização Conseguirá Iluminar o Sertão?”. Estiveram presente catorze pessoas no Instituto Goethe, trazendo questões que nos ajudaram a esclarecer o tema. Esse texto não tenta apresentar todo o colóquio na medida em que foi um acontecimento único. Inserimos alguns complementos para transformar tudo em um texto coerente.
Tentamos expor um tema vasto de forma clara e sintética. A experiência foi muito interessante, ao ter que desenvolver um assunto não comum a todos. Apesar de seguros no conteúdo, a forma ainda era confusa e preferimos assim, fazer uma conversa não muito formal, diferente de uma palestra, onde todos tinham a liberdade de se colocar.
Refletindo sobre o acontecido, percebemos que alguns temas não foram muito bem desenvolvidos, o que tentaremos fazer melhor agora. Várias dúvidas ficaram no ar, apesar de serem em grande parte exploradas, dentro das possibilidades de tempo e relevância ao tema.
Temos a impressão de que as questões são bastante complicadas e controversas, mas têm uma relevância tremenda no cotidiano. Tentamos abordar de maneira provocativa a civilização hoje em dia, o que está intimamente ligado à vida ordinária das pessoas.

“A Civilização Conseguirá Iluminar o Sertão?”


Civilização
Chamamos de cultura todas as formas (materiais e abstratas) de manifestação de uma maneira de existir. A civilização já é uma de suas possíveis conseqüências. A cultura seria uma maneira intrínseca ao homem de organizar a natureza. A civilização já é um tipo de organização. Pela concepção de certa cultura, seria a maneira plena de existência.
Essa maneira é um continuum estabelecido pela civilização. Não é apenas o discurso, mas a materialidade, as intenções, as instituições, as organizações, os desejos, enfim, a cultura como um todo que atualiza a própria existência dentro das direções estabelecidas.
Pegaremos Freud como emblema do conceito de civilização moderna:
"(...) a palavra 'civilização' descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos."
"Há muito tempo atrás, ele formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A estes, atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido. Pode-se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. Hoje, ele se aproximou bastante da consecução desse ideal, ele próprio quase se tornou um deus. (...) As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus."
"Exigimos que o homem civilizado reverencie a beleza, sempre que a perceba na natureza ou sempre que a crie nos objetos de seu trabalho manual, na medida em que é capaz disso.(...) Esperamos, ademais ver sinais de asseio e de ordem.(...) A sujeira de qualquer espécie nos parece incompatível com a civilização. Na verdade, não nos surpreende a idéia de estabelecer o emprego do sabão como um padrão real de civilização"
"Nenhum aspecto, porém, parece caracterizar melhor a civilização do que sua estima e seu incentivo em relação às mais elevadas atividade mentais do homem - suas realizações intelectuais, científicas e artísticas - e o papel fundamental que atribui às IDÉIAS na vida humana. (...) - suas idéias a respeito de uma possível perfeição dos indivíduos, dos povos, ou da humanidade como um todo, e as exigências estabelecidas com fundamento nessas idéias."
“A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização. (...) A primeira exigência da civilização, portanto, é a da justiça, ou seja, a garantia de que uma lei, uma vez criada, não será violada em favor do indivíduo.”
Seus conceitos baseiam-se em:
Religião judaico-cristã, cujos principais fundamentos são:
1- Deus criador absoluto, eterno e infinito;
2- Deus como símbolo do “Bem”, do poder da Verdade absoluta;
3- Mundo após a morte;
4- Deus como juiz de acordo com a conduta moral;
Assim, Deus está fora da natureza. Deus criador fez o mundo segundo leis, que regem a vida humana.
A história nos mostra que essa concepção normativa começou com o Império Romano adotando o cristianismo como religião oficial. Assumindo o Novo Testamento, com o Cristo redentor que nos livrou do mal, fundou uma nova ética da compaixão e possibilitou um novo começo.
Na Idade Média o poder se encontra sintetizado pelo clero. O que temos é um corpo (prisão da alma) que tende ao vício, e que deve ser purificado pelo comportamento correto. A terra prometida só pertence aos puros e está depois da morte. Isso se encaixa às Idéias de Platão, em que temos o mundo ideal perfeito e o mundo das sombras onde vivemos. Essa filosofia é literalmente resgatada por Santo Agostinho e não se opõe à doutrina cristã, mas se encaixa nela (alguns podem criticar como). De maneira análoga, Santo Tomás de Aquino é talvez o maior estudioso de Aristóteles e traduz tal filosofia ao mundo cristão de sua época.
Saindo da desvalorização do mundo da matéria, Bacon critica Platão e Aristóteles através dos filósofos medievais que acreditavam na compreensão da pureza das essências, e propõe que o homem possa utilizar as forças da natureza para construir na Terra o reino dos Céus.
“Pelo pecado o homem perdeu a inocência e o domínio das criaturas. Ambas as perdas podem ser reparadas, mesmo que em parte, ainda nesta vida; a primeira com a religião e com a fé, a segunda com as artes e com as ciências. Pois a maldição divina não tornou a criatura irreparavelmente rebelde;“
A partir daqui se instalavam as raízes do progresso. Aqui não há contradição entre fé e razão, pois o cientista está desvendando o mecanismo do relógio divino com auxílio de uma linguagem divina: a matemática. A produção de tecnologia dá novos poderes aos homens para a criação do mundo de Deus na Terra.
A impossibilidade desse sistema é superada pela fé em tempos melhores. Aqui a idéia do ser imperfeito com a idéia do perfeito na cabeça se realiza.

Assim, o mundo ficava pequeno. Essa civilização tinha que conquistar novos territórios, seja por um desígnio divino ou econômico de um sistema em expansão. Se Deus é a verdade soberana e única, os bárbaros devem ser civilizados. Esse processo é violento, pois o homem custa a aprender. Milhões de índios foram dizimados por uma força bélica sem equivalentes. Algumas instituições, como as vilas, as igrejas, as catequeses, o trabalho são criadas para disciplinar esse novo corpo que passou a existir. Com o passar do tempo as instituições são reformadas e sofisticadas, dando origem a escolas, hospitais, prisões e sanatórios.


Iluminar é tornar claro, esclarecer. Através do instrumento da lógica, colocar em ordem e explicar o funcionamento de fenômenos. Tem a ver com tornar conhecido. Isso possibilita algum domínio sobre a natureza, o que permite a formação de uma civilização permanente.

Sertão
O sertão não é uma área definida do território brasileiro, mas pode denominar, grosso modo, todo o interior do país. É uma área desconhecida, a ser desbravada e conquistada pelo primeiro que chegar. Aqui alguns Estados (Portugal e Espanha) estavam disputando a posse do novo mundo. O sertão não é o fora, mas a periferia do sistema.
Na tentativa de implantar leis em uma terra diferente da sua, estaríamos condenados a ser ‘desterrados em nossa própria terra’. Somos o espelho quebrado da Europa, nesse sentido o Brasil é o sertão da Europa. Com a implantação de cidades, temos lugares no território brasileiro que vão ser pequenas cópias do velho continente, cercadas de selvageria. Enquanto na Europa o discurso era da liberdade e da igualdade, na colônia vemos o ressurgimento do sistema escravista. A barbárie é recriada nas bordas do sistema para que o centro seja perfeito. O centro pode (e deve) ser perfeito e para isso sua imperfeição deve ser escondida no desconhecido.
As leis que valem no centro não valem na periferia. Ao sermos uma sociedade mal formada, o “homem cordial” age favorecendo os laços afetivos. Isso destoa da civilização, onde há uma lei geral. O sertão só é uma ‘terra sem lei’ pois têm uma lei própria, que existe e funciona, diferente da ideal trazida do além-mar. “Aqui embaixo, as leis são diferentes”. O sertão narrado por Guimarães apresenta leis como a da honra que funcionam com as armas que vêm de fora. Quantas cabeças de gado para comprar uma arma? Até a década de 60 não havia polícia em Morro da Garça e as questões eram resolvidas, de alguma forma
Sérgio Buarque acreditou que as ‘Raízes do Brasil’ seriam superadas pelo processo de modernização. Getúlio Vargas vai se apoderar dessa idéia de sertanejo para constituir o típico brasileiro. O brasileiro só pode vir de dentro, do coração do território. Isso seria autenticamente brasileiro. Miscigenado e com uma vida simples. O diferente também faz parte.
Onde seria a capital desse novo país? No coração do planalto central (em oposição a uma ocupação costeira que existe até hoje) nasceria o símbolo desse país. O Brasil seria um centro, pois até então ele foi um apêndice da Europa. O rompimento com a metrópole seria o início de um desenvolvimento próprio. Esse centro só poderia ser de uma nova arquitetura para um novo homem: o moderno. Assim também o samba que era desprezado desce o morro e vira bossa-nova.
A arquitetura moderna de Brasília é o símbolo máximo desse projeto humano. Se as cidades nasceram em rotas de burros, essa seria totalmente planejada pelo homem. A linha reta é sempre arquitetural pois é feita pelo homem, que se impõe frente à natureza. As cidades (símbolo máximo burguês) poderiam ser feitas com consciência, e não meramente reformadas. Livrando-se da natureza e do passado, o homem chega cada vez mais próximo do reino dos céus, da ordem divina.
Porém, com a decadência do ocidente, fica cada vez mais difícil de entendermos a glória de tais ideais, antes explicitamente valorizados, que foram as forças construtoras do espaço em que vivemos.
O subdesenvolvimento do Brasil não pode ser superado nesse plano, pois é o outro lado do desenvolvimento. A dependência tecnológica que não pode ser superada recria a dominação colonial.

Rumo a um sistema sem centro
No processo histórico do século XX, vemos uma maior intensificação na generalização dos moldes de desenvolvimento. Todos querem chegar ao mesmo lugar e, aparentemente, aprenderam como.
Com a Guerra Fria, efetivamente o poder centralizado na Europa se desloca. No fim deste evento, uma guerra também ideológica, constitui-se uma nova ordem mundial, de interdependência generalizada, não mais com uma metrópole irradiadora de decisões, mas com uma teia que necessita de jogadores preparados, que não queiram sair da competição.
Podemos então, pensar em um mundo em processo de descentralização. O mundo se mantém em paz entre os países, porque a cultura foi disseminada. Temos o cinema como um instrumento poderosíssimo de transmissão, muito mais acessível do que a literatura.
Com a criação da ONU, temos um contraste grande em termos de violência comparado com o passado. Hoje, apesar das guerras existentes, o processo é mais ameno. Pode sê-lo porque os rebeldes são cada vez em menor número e apresentam cada vez menos riscos. Os processos são simultâneos, porém não homogêneos. Ou seja, lugares diferentes do mundo, ainda lidam com problemas de modernização, em diferentes graus. Mas são afetados também pelo processo atual de globalização.
A descentralização significa expansão e interiorização. É como uma escola: doutrinamos as crianças com a disciplina de aprendizagem, duramente no início, se é que não interiorizam ou não repetem a forma correta. Quando, enfim, estão maduros o suficiente, podem então desamarrarem-se dos mestres, vivendo sozinhos sob tais preceitos, inclusive ensinando aos outros. Tornam-se novos embaixadores.
Por isso, a violência, entre os disciplinadores e os disciplinados pode ser cada vez menor. Porém, entre os disciplinados, existem os que estão mais ou menos inseridos e assim, emerge a violência dentro do próprio sistema, daqueles que não conseguem se enquadrar.
Enquanto na Europa as matas são recompostas, no Brasil, o que era pasto se torna eucalipto, voltado para a produção de carvão e aço. Produtos que irão pagar o preço da dependência tecnológica. Esse processo é antigo e ocorre simultaneamente à chegada das possibilidades urbanas quase plenas em pequenas cidades do interior. O ideal do povo é o mesmo. Nos projetos de migração de nordestinos para São Paulo, realizados pela então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, os migrantes chegavam até a metrópole em busca do que a cidade oferecia (emprego, consumo, etc), mas que hoje pode ser encontrado em suas próprias terras.
A lógica do centro não é apenas econômica, é uma lógica de transmissão de conhecimento e desse conhecimento iluminista; um processo que leva tempo. Para entrar no jogo econômico, é preciso seguir as mesmas regras. Mão-de-obra qualificada e infra-estrutura apropriada. Com a nova configuração tecnológica e infra-estrutural (rodovias e telecomunicações), a migração não é mais tão necessária. De qualquer forma, mesmo saindo, estão preparados para entrar na lógica predominante. Em Morro da Garça encontramos universidades virtuais.
Cada um é uma peça e todos têm a mesma formação cultural, estando aptos a fazer parte da civilização. Claro que existem os que não têm acesso, mas ainda assim, compartilham dos mesmos ideais.
Einstein nos ilustra a formação de paradigmas com sua anedota a respeito dos macacos e dos jatos d'água. (Narrado em "E o mal-estar na civilização?")

O importante para a civilização não é saber por que, mas como fazer.
Estamos passando de uma visão de civilização que reprime, para outra que constrói as pessoas.
Quem domina está no ideal. Quem é dominado está no ideal do ideal.
É a possibilidade de todos ascenderem, portanto, é a possibilidade de cada um, como centro, tronar-se melhor. A elite está tão doutrinada quanto o povo, mas a elite concentra mais poder.
Num mundo 100% cartografado, jogar a sujeira para as bordas tem um limite, inclusive ambiental. Ao mesmo tempo em que recusam, muitas vezes violentamente, os dejetos da pureza, em determinado momento esse outro, encontrado pelos europeus, consegue reivindicar seus diretos enquanto tal. O discurso da diversidade emerge depois do pleno domínio da civilização.
Podem assim virar atração turística. Caracterizando e categorizando tipos excêntricos, assumimos a mesma lógica de um zoológico. Sua selvageria foi domesticada e não apresentam mais perigo. As histórias que eram modos de vida, contadas cotidianamente, hoje em dia, no mesmo lugar, as pessoas agora decoram as histórias sobre elas mesmas.
No mundo incorporado, sem ter mais para onde jogar a imperfeição, o mal continuará aparecendo, mas agora, dentro do paraíso civilizado.
Assim, ainda acreditando no projeto civilizatório de purificação, começam a elaborar políticas de higienização, pedindo mais civilização. É o caso de “Tolerância zero” em NY ou os vidros blindados e escuros dos carros, cercas elétricas, câmeras... A civilização deve ser para todos e não pode acabar onde acaba o seu mundo.
O poder do individuo não é só social, mas também material. Assistimos à criação de sistemas que necessitam de muita energia para o consumo de alguns (que vivem como reis).
Dentro da lógica capitalista, é difícil barrar o consumo. Isso porque não conseguimos entender por que deveríamos, já que todo o processo produtivo ao mesmo tempo em que é mundialmente interligado, é fragmentado para o consumidor. Aceitar um produtor é aceitar toda a sua cadeia produtiva. De outras formas, os próprios indivíduos satisfazem suas faltas neste mecanismo de eterno preenchimento.

De volta ao Sertão
Queremos a força do sertanejo e não suas características admiráveis. Nem o romântico e nem o pessimista. Nem o sertão puro, nem uma área a ser civilizada. Será que existe um plano de encontro fora desses conceitos? Onde está o plano de geração desta realidade?
Tentamos eliminar o desconhecido, o mapa fechou. Tentamos domar o inconsciente para descobrir que o sertão está dentro de nós.
Devemos pensar no sertão por dentro do serão e a civilização por dentro da civilização. Enxergar o sertão tal como nós imaginamos que Rosa o tenha visto.
O final do conto “Recado do Morro” mostra o espírito sertanejo. Pê-Boi, o Rei dos gerais é vítima de uma cilada por ter violado a lei local. Ao matar os seus traidores, ele se vê incriminado tanto na lei local como na lei da cidade. A única alternativa é escapar para os Gerais, o sertão do sertão. Como colocou Arthur: “eu sou sertanejo e ninguém vai me pegar se eu não quiser”.
Existe um sentido que é incapturável, que permanece diferente mesmo estando dentro. Na obra de Rosa existe algo que vai além da caracterização. É a própria vida do sertanejo, para além das manifestações materiais e para além dos conceitos: é o mistério, o desconhecido que ainda e sempre irá se expressar. Se “o sertão está em toda parte” e “o sertão está dentro de nós”, não podemos deixá-lo morrer, ou pior, virar uma estátua, ou pior ainda, logotipo de camiseta. É preciso vivê-lo, dentro e fora da civilização, simultaneamente, como uma cultura nômade de solo, que está nas entrelinhas, não pelas suas formas, mas por sua força! Pela crítica de um sistema supostamente sem deuses. Sem verdade ou mentira, sem erro ou acerto sob qualquer aspecto metafísico. Nem o bom selvagem, nem o lobo do homem. Que os sertanejos descubram o que é!








Bibliografia:

BACON, Francis “Novum Organum” e “Nova Atlântida”
CORBUSIER, Le, “Urbanismo”
DELEUZE, Gilles “Post Scriptum sobre as sociedades de controle”
Dezmilplatos.blogspot.com
FOUCAULT, Michel “Microfísica do Poder”
FURTADO, Celso “O Mito do Desenvolvimento Econômico”
FREUD, Sigmund, “O Mal-estar na Civilização”
HOLANDA, Sérgio Buarque de, “Raízes do Brasil”
MOURA, Carlos A. R. de “Nietzsche: Civilização e Cultura”
PLATÃO “Diálogos”
ROSA, Guimarães, “O Recado do Morro”
---------------- Dicionário Larrouse

O colóquio foi apresentado por Arthur e Pedro, no dia 4 de agosto de 2007.

26 de agosto de 2007

E o mal estar na civilização?

A psicologia e o mundo contemporâneo


Para entendermos a psicologia, devemos ir ao momento em que foi formulada e aí, garimpar por suas origens, propósitos e, principalmente, em que se sustenta.
A psicanálise lançada por Freud conta com uma impressionante formulação metodológica e explicativa, mas em seu texto “O mal estar na civilização” e em sua carta a Einstein, em que os dois dialogam sobre a paz e a guerra, podemos entender suas idéias sob um ponto de vista que extravase a própria teoria. Tomando-os por base, podemos vislumbrar as crenças que levaram Freud a desenvolver a psicanálise.
Seu ponto de partida são as patologias que observa nos indivíduos e que acredita advirem de traumas no processo de constituição do ser social. É exatamente aí que encontramos o mal estar na civilização. Freud defende que para a vida em sociedade, é necessário que os indivíduos abram mão de sua total liberdade, em nome da segurança permanente. Diz que o redirecionamento da libido, antes focada em atividades mais próximas dos animais, permite o desenvolvimento das funções elevadas dos homens, como a ciência ou a arte.
A opressão dos instintos individuais possibilitaria a dominação das forças da natureza , esse primordial inimigo da raça humana (sendo inclusive essa opressão uma de suas formas de dominação). Assim fundamenta o complexo de Édipo, a castração inicial, a primeira poda à libido, a chave inicial que incentiva a repressão dos desejos instintivos em nome de um bem maior.

"(...) a palavra 'civilização' descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos."

Freud acredita e investe todos os seus esforços na perpetuação da civilização. Não há nada tão sublime quanto tudo o que criamos até agora. Portanto, a proteção contra a natureza significa estarmos seguros do ambiente, domando suas forças através das criações tecnológicas advindas da liberação da libido das funções instintivas, como também estarmos seguros contra a violência dos homens em estado de natureza, em que impera a lei do mais forte. Na carta a Einstein, Freud explica: A união faz a força. Para a segurança de todos os indivíduos em igualdade, era necessário que estes se unissem, estabelecendo uma organização permanente que garantisse o balanceamento das desigualdades naturais.
Livres dos problemas básicos, os homens poderiam então, se desenvolver.

"Há muito tempo atrás, ele formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A estes, atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido. Pode-se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. Hoje, ele se aproximou bastante da consecução desse ideal, ele próprio quase se tornou um deus. (...) As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus."

Até então, recebiam tratamento aqueles que apresentavam distúrbios radicais, delimitados pela medicina (psiquiatria) como inviáveis para o convívio em sociedade.
Porém, Freud nota que existe um mal estar, praticamente geral, advindo dos problemas de enquadramento na sociedade, no processo de redirecionamento da libido. Indivíduos que não conseguem abrir mão da liberdade individual em nome de um bem sublime sofrem e apresentam distúrbios, o que ele categoriza como neurose.
A efetuação fundamental da civilização, que oprime para melhorar não conseguia mais ter força, principalmente frente ao cenário de Guerras do começo do século XX. Tudo o que assumimos um dia que seria a realização do paraíso na Terra através do trabalho, parecia não ser verdadeiro. Tal realidade abalava a população e necessitava de um trabalho novo e diferente. É assim que propõe a análise do aparelho psíquico, que avaliaria os momentos em que o dilema se apresenta e como poderia então ser resolvido.

Portanto, Freud parte de uma concepção de norma, assim como toda a medicina e toda a nossa sociedade em geral, que estabelece um modelo como base. Aquilo que foge ao modelo é, em diferentes graus, problemático. Não só isso, mas devem existir maneiras de reintroduzi-lo na sociedade, ou seja, de normalizar o diferente. A psiquiatria, ramo médico, baseia-se no receituário de substâncias controladoras do sistema biológico. A função da medicina é tornar o indivíduo novamente produtivo para a sociedade. Se isso não for possível, que ele seja então confinado. Se não ajuda, que pelo menos não atrapalhe. A medicina possui uma estreita ligação com a normalidade da sociedade; é uma ferramenta.
Freud rompe com este tipo de tratamento, não por seus objetivos, que permanecem os mesmos, mas pelo método de tratamento. Freud se propõe a resolver um problema que não era necessariamente biológico.
Advindo de assuntos relativos à castração, a função da análise é a de efetuá-la categoricamente, descobrindo como o paciente pode reinvestir sua libido e sublimar o mal estar em alguma atividade socialmente produtiva.
Temos agora bastante clara a função da psicanálise e da psicologia, cuja origem é a mesma. Ela tem o papel de levar a cabo o processo de castração. Aquilo que foi falhamente conduzido pela família, deve ser realizado definitivamente pelo analista. O bom analista é aquele que torna o seu paciente uma ovelha obediente, fazendo com que aceite um lugar mesmo sem saber as condições da civilização. O objetivo é reintroduzir o indivíduo potente nesta sociedade, tornando-o uma pessoa conformada.

Fundamental é que isso não seja esquecido. Todo o tratamento psicanalítico tem como fundamento o modelo da civilização vigente como ideal.
A proposta é realmente louvável. Em nome da perfeição coletiva trabalha o analista, tornando aceitável o sofrimento. O homem não vê problema em sofrer, mas em fazê-lo sem motivo.
O que vemos hoje é a expansão do tratamento psicanalítico (não muito diferente em suas bases de qualquer tratamento psicológico). Isso significa que muitas pessoas sentem e não dão conta de lidar com a pressão de renegar os seus instintos, de lidar com o dilema entre o ser social versus o ser individual.
Se o problema se generaliza temos algumas possibilidades para investigar. Podemos pensar que as instituições que deveriam efetuar a castração não estão sendo eficientes. Isso faz sentido se pensarmos na crise da família com a emergência do individualismo. Os pais, talvez já falhos enquanto castrados, não conseguem castrar os filhos, afinal, dificilmente passam muito tempo juntos.
Podemos também pensar que a civilização não oferece recompensas suficientemente valiosas para que os indivíduos decidam sofrer, serem castrados, em nome de algo melhor. Não vêem perspectivas para se inserirem socialmente como seres perfeitos ou em nome dos valores da civilização. Claro que podemos dizer que a questão está muito mais ligada à possibilidade de acesso aos bens do que aos seus valores.
Mas se estamos o tempo inteiro colocando o dilema entre indivíduo e civilização, sempre focado no indivíduo como cerne, por que não também averiguarmos a situação da própria civilização?
Se eu dissesse que tenho certeza de que uma laranja é quadrada. Você acreditaria? Claro que não. Então eu diria que a laranja só não o é, porque ainda é imperfeita e que nós precisamos transformá-la em quadrada. Consigo convencer alguns, que convencem seus filhos e após 6.000 anos, conseguimos fazer a laranja ficar deformada, inclusive ensinamo-la a falar e dizer que é quadrada quando perguntamos. As que não se esforçam por serem quadradas e que não acreditam serem quadradas na verdade, mesmo que as aparências digam o contrário, precisam de tratamento, para que abdiquem de tudo o que são de fato, para que não sejam como são, porque ser redondo é errado.
Parece um absurdo, não? Mas nós fazemos a mesma coisa. Dizemos que tudo o que é natural é errado e que na verdade somos de uma outra forma, uma forma ideal, que pertence ao mundo do imaginário e que só poucos podem ver. Mas nós devemos acreditar nisso, correndo o risco de que alguma coisa aconteça; algo que nem sabemos muito bem o que é. O inferno, a barbárie, a insegurança, enfim. O problema seria a falta de castração ou a necessidade de fazer as laranjas serem quadradas?! As teorias estão sempre certas, é a realidade que está errada?
Ao criar o problema, podemos dar a solução. Ao afirmar que precisamos nos contentar com o mal estar, que ele é preciso, criamos a maneira de resolvê-lo, e os psicólogos ficam muito contentes, com suas profissões em alta. A religião da mesma forma (Bola de Neve é um sucesso... sem mencionar os mais novos cultos 'New Age'). O consumo... Lembrem-se de como é a família da Doriana, será que a nossa própria não é daquela maneira por que usamos manteiga?
Nossa civilização possui uma história, uma genealogia, um viés de pensamento que a estrutura. Por que não questioná-los?
O próprio Einstein nos conta uma anedota a respeito:
Cientistas colocaram três macacos, uma escada com um cacho de bananas em cima, todos dentro de uma sala fechada. Sempre que um macaco subia para pegar as bananas, os três macacos recebiam jatos d’água. Repetida a cena diversas vezes, um dos macacos tentou subir e os outros dois o pegaram e espancaram-no. Assim aconteceu sempre que um subia. Os jatos d’água não precisavam mais ser acionados. Substituíram então um dos macacos por um novo, que ainda não sabia do jato d’água. Na mesma hora em que entrou, foi direto para o cacho, mas antes que subisse a escada, foi espancado pelos outros dois. Os cientistas substituíram mais um dos macacos e depois mais outro, até que nenhum dos macacos tivesse recebido o jato d’água. Mesmo assim, quando um tentava subir, era espancado. Então os cientistas perguntaram para os macacos por que é que espancavam quem tentava pegar as bananas. A resposta foi simples: “Porque sempre foi assim”.

Até quando seremos macacos estúpidos e resignados?
Faço um convite a todos pensarem mais sobre o que é tido como natural e de experimentarem as coisas como realmente são, sem moldá-las segundo nossos ideais seja lá qual forem eles.


As citações são de FREUD, "Mal estar na civilização", edição virtual.

Este texto é baseado na palestra de mesmo título, realizada no "dia do psicólogo".

23 de julho de 2007

O Sertão mineiro por olhos irriquietos

Partida

Era de manhã cedo, sábado 2 de junho de 2007. Após cruzarmos São Paulo pela Fernão Dias chegamos ao estado de Minas Gerais. Éramos transportados por ônibus, um automóvel incômodo que é lento para os que querem chegar e rápido demais para quem quer viver o percurso. Permite apenas algumas observações pontuais sobre o que é visto e ao mesmo tempo nos coloca em reflexão, quando não em sonolência.
Logo na partida, Pedro e eu começamos uma densa conversa a respeito do futuro, caindo enfaticamente sobre a engenharia genética. Eu tinha a intuição de que a viagem havia começado mesmo antes de entrarmos no ônibus e aquele assunto teria grande importância durante aquela semana que se iniciava. Antes de resumir a conversa, vale a pena mencionar algumas de minhas questões que compunham aquilo que se iniciava com maior densidade.
Primeiramente, o tema “sertões” estava recorrente em minha vida. Euclides da Cunha me despertou algo, que foi plástica e fantasticamente explorado por José Celso em sua maratona teatral entitulada de “Os Sertões”. Me propunha a explorar essa vida outra, que “está em toda parte” e ao mesmo tempo é invisível. O substrato sempre foi a ligação com as forças da natureza, algo que sentia ter perdido e que com muito esforço conseguia vislumbrar. Em mim, carregava o conflito com a civilização e tudo o que traz consigo, algo grande que torna o ser humano distante de suas potências. Cruzavam meu caminho Freud com seu “mal-estar na civilização”, Nietzsche, Spinosa, mas acima de tudo um incômodo profundo em mim mesmo, com os meus arredores e companheiros.
De volta às poltronas, sentados e nos movendo em alta velocidade, analisávamos a defasagem que existe entre a ciência dura e as outras ciências, um imenso distanciamento entre as práticas e o conhecimento. Enquanto discutimos a pós-modernidade, a linguagem, etc, a tecnologia avança sem limites. Por mais que hoje em dia, as discussões epistemológicas estejam em alta, a fragmentação do conhecimento permite que uma confusão ética não iniba o desenvolvimento tecnológico e então, como uma adolescente rebelde, a ciência caminha inconseqüente. Com o estado de coisas atual, estaríamos, então, entrando em um terreno delicadíssimo, em que o controle sobre os efeitos do que produzimos é cada vez menor, ao passo que seus resultados são cada vez maiores. Até hoje, foram enormes os avanços na tecnologia física e química, que produzem resultados que são até certo ponto controláveis, pelo menos a curto prazo. O desenvolvimento industrial trouxe consigo seus problemas, como a poluição, o aquecimento global, a crise energética. Como foi ao longo da história, surgem problemas e conseguimos remediá-los, mesmo que sofrendo muito para isso. As soluções trazem consigo novos problemas que necessitam de soluções que trarão novos problemas e assim sucessivamente. Para a atualidade, seguindo a tendência principal, a nova tecnologia é biológica e é o caminho para continuar o desenvolvimento de nossa cultura e eventual espécie. Com a engenharia genética produziremos efeitos cujas conseqüências não temos a menor possibilidade de prever, já que as mutações produzidas, em meio aos 90% de DNA lixo (que parecem não ter qualquer função), serão transmitidas descontroladamente para as gerações futuras, com misturas inimagináveis. Estaríamos abrindo a caixa de pandora?
Creio que este é um mecanismo sem fim e a questão é avaliar os resultados. Caso decida-se que as coisas não estão boas, a única possibilidade é mudar tudo, incluindo aí, uma visão de homem e sua visão de mundo. Caso contrário, estamos fadados a continuar investindo em soluções para os efeitos do problema. É relevante colocar na discussão quais os problemas, já que muitas vezes percebemos que só nos incomodamos, porque não estamos por cima da situação. O que incomoda não são os fundamentos, que geram subdesenvolvidos e sim nós, que estamos subdesenvolvidos.
Ao final do dia, ainda no ônibus, o assunto retornou, entrando já em questões mais práticas, em casos exemplificáveis, mas que não alteram o teor da crítica. A decisão é uma: mudar ou melhorar.


O Caminho pra lá do morro

Paramos para o almoço, tipicamente mineiro, saborosíssimo. Arroz, feijão, farofa, costela de porco, frango com quiabo, frango ao molho, romeu e julieta.
Depois, uma conversa com um senhor de quase 80 anos, pai do Chico, o dono do lugar. Entre muita metafísica de vida, lições existenciais, conselhos genéricos como, por exemplo, os poucos amigos que temos de verdade, a necessidade de humildade na vida, de alegria, afinal, todos temos problemas, o dever de olharmos sempre à frente, nunca desistir, entre outros, o senhor comentou um pouco sobre como surgiu o restaurante. Fruto de uma visão empreendedora, em que montara uma venda no terreno rural, que começou como um pequeno bar para os locais, o lugar foi crescendo, o dinheiro entrando e hoje podiam gozar a vida com tranqüilidade. No passado, aquele homem havia sido vereador, imobiliário, especulador, enfim, um capitalista. Não nos moldes industriais, mas à brasileira. Tinha terra e visão de modernidade, de futuro direcionado.
Mais tempo de viagem, paramos em um outro restaurante de estrada, que assim como o anterior, possuía ares bucólicos, o tal do “bom gosto” e um pouco de comida típica, misturada à industrialização. Isto é importantíssimo: a industrialização (no caso, na alimentação) penetrou toda parte, inclusive a cultura tradicional. Por mais que as receitas permaneçam, os processos já são muito diferentes, contando inclusive com ingredientes vindos de muito longe. Portanto, é inútil procurar pureza, nem no passado, nem no presente e nem no futuro, porque isso não passa de uma romantização da realidade. Talvez mais do que constatações, a viagem trouxesse desconstruções ferrenhas, que chacoalham as estabilidades e em seu lugar, colocam dúvidas e incertezas. Insuflam mais vida em nossos pulmões.
Já à noite, passamos por Belo Horizonte e, em seguida, por usinas à beira da estrada que se mostravam com enormes labaredas, galpões e caminhões. A sensação era apocalíptica. Era evidente um processo agressivo, mesmo que não possa dar detalhes à respeito.
Chegávamos ao nosso destino, Morro da Garça, centro geométrico de Minas e quem sabe, outros também. Os ares eram outros, frescos, frios. Direto para o alojamento (o centro cultural da cidadezinha), jantamos uma espécie de caldo, parecido com o que chamamos de vaca atolada, feito de mandioca e carne de boi. Saímos para interagir com o lugar. Entrementes, Fátima, esposa do prefeito, loira, distinta, falava com esmero, uma admirável anfitriã. Ela voltaria a aparecer diversas vezes ao longo da estadia. Sua grande vontade era fazer de nossas visitas momentos muito agradáveis e de nos deixar felizes.
A cidade se preparava para a Festa da Lavoura, o maior e mais tradicional evento, com carros de boi, cavalgadas, cantorias, shows, desfiles, etc. A praça central era cada dia mais decorada e muitas barracas, feitas de palha, eram montadas.
Fátima nos apresentou a cidade em uma pequena volta, explicando que muito da renda advinha da pecuária leiteira e que as pessoas da cidade eram em grande parte empregadas pela prefeitura.
O forró era muito alto, a toque de caixas de som, volumosas. Preferi o boteco com os violeiros. Orangotango era o nome. Nele, diversos bebendo bastante e tocando violão com acordeão e cantando. No luar cheio, nos chega um rapé picante, descongestionante, estímulo ao espirro. Nisso, puxam conversa e o papo, por mais que desconexo, foi uma grande aproximação. Uns convidativos, outro, crítico, me alertou, “são poucos os que aqui sabem o que é o sertão”.


Uma volta - percepções

Na manhã seguinte, caminhamos pela cidade e por acaso chegamos a uma pequena quadra coberta em que estava instalada uma feira de roupas. Olhando nas etiquetas, “Made in Brazil”. Os donos, eram de uma loja com várias filias por Minas e Goiás, chamada “Lojão do Brás”. Roupas produzidas em São Paulo, no Brás, com mão de obra boliviana?
Logo ao lado, uma humilde casa, fogão à lenha do lado de fora, preparando o almoço. Um mamoeiro cortado quase na base e a mulher que cozinhava me disse que alguns bois vêm à noite e comem as plantas alheias. Perguntei-lhe se poderíamos comer o boi e ela riu. O boi não pode. Em sua pequena horta, misturadas plantinhas, ervas e temperos. Disse-me que costumavam preparar chás para curar doenças e eu perguntei onde estavam as plantas. Ela me disse que havia uma horta medicinal comunitária feita pelas crianças da escola e que qualquer um poderia ter um pouco do que precisasse, bastava pedir.
Pela cidade, ruas de terra, verde e laranja, ao fundo o Morrão, nas casas mandiocas, bananeiras, temperos, urucum, genipapo, jabuticaba. Micos (sagüis), periquitos, anus, joãos-de-barro, maritacas. Algumas casas tocavam violadas, outras, funk carioca.
A casa de cultura realiza um projeto com jovens contadores de histórias. Eles decoram textos de Guimarães Rosa e reproduzem as histórias, com interpretações, no mínimo oratórias. Um grupo realiza excertos de “O Recado do Morro”, focado principalmente na transmissão do recado entre os personagens da história. Os jovens se caracterizam com roupas, entonações, fisionomias e diálogos e caminhando pela cidade recontam a história. É uma atividade muito interessante, encantadora. É uma pena que para a maioria, a literatura se resuma a decorar contos.
Mais tarde tivemos uma conversa com o Prefeito Zé Maria, com um sagaz professor de biologia, Giovani e com a diretora do colégio e geógrafa. Em meio a diversas questões práticas, latente minha inquietação que se ligava totalmente ao que Giovani brevemente falara: como se dá a relação entre a valorização das tradições, o resgate do conhecimento sertanejo e a pressão da modernidade. As respostas foram dadas por Fátima, que contou os projetos que existiam. É engraçado, mas o tempo todo vejo essa resistência pelas abstrações, que permitem relacionar os fatos. Parece que temos que ficar o tempo inteiro presos à realidade, que para mim, é pura realização destas loucas abstrações.
O foco principal das ações da prefeitura era a melhoria básica das condições para a vida da população, sendo elas o aumento da renda, a melhoria da saúde e da educação. Acima de tudo, elas visam o aumento da auto-estima, ou seja, a valorização da cultura tradicional e dos valores locais, que têm ganhado importância atualmente devido ao turismo. Querem fazer com que as pessoas fiquem na cidade, com que não desejem sair para as grandes cidades. Para isso, é preciso criar o que fazer na cidadezinha, coisas que atraiam os jovens, em comparação com a bombástica cidade grande.
Se voltarmos à idéia da industrialização infiltrante, não é então a cidade que perde interesse e por isso as migrações diminuem, mas a urbanização que se dilui e penetra nos interiores. As facilidades da urbanidade estão agora em toda a parte e a valorização local só se dá em função da cidade. Não é mais preciso sair, ela vem até você.
Em uma conversa com Lidiane, uma das contadoras de história, simpaticíssima e estudante de Letras junto com o professor Dieter, constatamos uma interessante diferença entre as relações dos indivíduos e do coletivo, principalmente nas formações familiares. Existe lá uma relação íntima ainda forte, em que todos se conhecem e sabem com detalhes uns dos outros. As notícias correm rápido e a família tenta se agregar frente ao desmantelamento moderno da família nuclear. Chamou-me a atenção que lá, a família não é nuclear, mas horizontal, ultrapassando as residências e incorporando laços de parentescos mais distantes e inclusive de amizade. Nas metrópoles, torna-se possível o isolamento e a autonomia individual, mesmo que apenas aparente, ao mesmo tempo que se torna bem fraco o entendimento da interdependência entre as gerações e entre as funções sociais e vidas pessoais.
O que digo sobre a urbanidade fica evidente na arquitetura, “qualquer lugar no Brasil”, quase pré-moldada, barata, de laje batida, janelas de ferro ou alumínio e paredes rebocadas.
Ainda assim, a luta pela valorização das tradições, mesmo que sem muita consciência da amplitude do processo de modernização global, é um esforço enorme para possibilitar a criação de valor.
Mas o que é valor? Para meu amigo Pedro, são problemas de falta de rigor nos conceitos, o que não ocorre nas ciências duras e por isso elas funcionam. Para mim, é muito mais, algo que beira a visão de mundo em seu caráter prático. Vejo que trabalho imaterial existe e sustenta, gerando o progresso da vida como está, o eterno colapso. Ainda podemos ver alguns sertanejos, que bebem muito, que recordam suas tradições que ficam cada vez mais distantes de suas vidas práticas, tornando-se mero foco de apreciação excêntrica, que gera renda e permite viver. Em forma sutil, os efeitos são os mesmos ao redor do mundo, variando apenas em intensidade.
Da mesma forma, sentados em um grupo, à noite, percorrendo a cultura paulistana, tentávamos decifrar, ou encontrar, nossas tradições, uma tarefa nada fácil. Passamos por lendas urbanas, os fluxos, o trânsito, a tecnologia, a velocidade, a simultaneidade, a música: hip-hop, rap, samba? No bar, uma roda de samba com pandeiro. Algumas letras mencionavam Copacabana, Ipanema, Itapuã. São Paulo ficou por conta de Tom Zé. A cultura cosmopolita da cidade grande ainda é bastante vaporosa. Mas lembra uma copa sem raízes, um polvo sem cabeça.


Carvão

Pela manhã fomos a uma carvoaria. Percorrendo imensas plantações de eucalipto urofila, chamadas de “reflorestamento”, pastagens e algum pedaço degradado, chegamos a um campo aberto, com uma enorme fileira de iglus de barro, como gigantescos cupinzeiros e alguns homens por perto. O primeiro, de forno em forno, jogava lama para vedá-los. Outro colocava madeira de precisa maneira no interior das cápsulas que tinham apenas uma entrada; uma redoma negra por dentro que se enchia. Quando cheia, outro fechava a entrada, vedando-a novamente. Antes disso, colocava fogo e por estar devidamente lacrada, surge carvão em vez de fogo e cinzas. Algum tempo depois, cerca de 2 dias, o forno era aberto, o carvão retirado. Trabalho duro, muita fuligem, muito desgaste, pouca remuneração. Por pior que parecesse aos meus olhos, diziam-se alegres e satisfeitos, era uma escolha, mesmo que com escassas opções.


Parênteses

Lá a vida é prática. Resolvem-se problemas cotidianos criativamente. Problemas práticos.
Claro está que, como na literatura, a realidade e a ficção dificilmente se distinguem. Passado, presente, futuro se traspassam, se permeiam e ainda assim, flutuam na imaginação, num roteiro incoerente, porém sólido.
Ao dizer, falta o espaço. Falar é uma arte, a arte da seleção, que consegue em si criar realidade. A rede que sustenta o ato, o modo de vida, permanece esticada e muitas vezes isolada do que entretém. Como é, sempre será o que é, um atributo e nunca outra coisa além do que é.
O pensamento parece servir de conforto para aliviar o peso de viver o presente. Enquanto isso, segue o rio da vida, implacável e irônico.


Sertão e civilização

Foi Cordisburgo, em um quintal, casa de Guimarães Rosa quando pequeno, de frente para a linha férrea, casa fina e rica, de comércio, que se assentou em mim mais uma questão. Ao sertanejo, homem tranqüilo e conversador, perceptível, maleável e questionador, não falta. Há sempre alguém que o sustenta. Não é assim que funciona a civilização? Alguns que se doam em nome de outros para que estes consigam realizar algo relevante por todos, o trans-homem? No mínimo duvidoso.


Alegria

De volta ao Morro da Garça, fim de tarde. Há motivo para ser alegre. Não é exatamente o que se possui, mas o ser possuído, viver a vida como ela vive, alegria da natureza em existir simplesmente: maritacas, pombos, bem-te-vis, pássaros pretos; palmeiras enormes, bromélias, árvores únicas que não saberia dizê-las. No horizonte, paisagem, amplitude, expansão. O mundo derramado num céu claro sem impedimentos. Sem perceber mesmo, no assim viver. Canta-se mais, ri-se mais, vive-se mais. Mesmo que o trabalho seja duro, os acontecimentos amargos, o ritmo é suave, a atmosfera, permeante celular, é leve e tranqüila. Para quem tem os óculos de Miguilim, tranqüila até demais, entediante, sem graça, monótona, sem ter que fazer, mas ainda assim é tranqüila e leve. E os dias passam. Passam como num sonho que descansa o corpo, que faz do sofrimento um ser etéreo e faz a imaginação muito mais concreta.


Um mergulho no turbilhão – uma visita aos pensamentos

Modernização, modernizações, invasão, migração, transbordo da emoção e do consumo, permear, rigor, homem, natureza, natureza-homem, paisagem, gigantes incrustados, impacto, convivência, tempo. Espaço-tempo. Tempo.
Sétimo dia de viagem. Como fizeram os desbravadores, desvendamos o desconhecido, mansamente chegados, sendo tocados e transformados por uma natureza-vida que satura a pele, invade suavemente o corpo e carrega, como o olhar de encantamento de quem vê e sente o entardecer como único acontecimento.
Assim é quem se liberta do cotidiano e se abre ao afeto, disposto a transformar seu mundo enquanto constrói o mundo. E é desse jeito que vejo estes chãos, uma terra que envivesse, mas é pisada com descaso, que se coloca aos pés dos homens, que ora arrogantes, ora ingênuos, impulsionam suas vidas em nome de intuições que extrapolam explicações. Imperceptível, presenteia as mudanças como pode, sempre dando e nunca recebendo, a não ser seu próprio corpo, contaminado por sua própria vida que se tornou uma mazela.
Ainda que coletivamente, compostos uns com os outros, em comunidades fraternas, de que adianta, se despercebem o extra-humano, o que sentimos e não sabemos, o sertão? Será que é possível sonhar-se com liberdade sem estar-se imerso no rio que dilui as paredes de concreto, os bloqueios de granito empilhados, as veias de asfalto hipócritas que circulam perversões que atormentam as almas das gerações nascentes?
Não são as coisas que vejo que me torturam, mas saber por que elas existem, tendo a certeza de que a concreta expansão que encerra o planeta isola tudo cada vez mais. Entretanto, o isolamento não é físico, nem metafísico. É uma física sutil, física fluídica, que contém barragens intransponíveis pela lógica do raciocínio, que se coloca incessantemente em desacordo com os impulsos de vida.
Há quem pense que a ignorância leva a ações incoerentes, destrutivas, maléficas. Mas de qual ignorância falam? Quem tem a certeza das conseqüências de suas ações? Quem pode realmente garantir suas certezas sobre o mundo que realmente existe e é dinâmico? Creio que a ignorância é a ação que vai contra a intuição, o discurso que vê em tudo a si próprio, que se enrijece e perde o jogo da vida, a ação determinante e não a determinada. Parece que me desviei do que comecei a dizer e preciso voltar para o mundo que às vezes me solta e me permite voar.
Como muitos dias não foram pintados no papel com tinta, não vale o esforço de colocar em pormenores tudo o que aconteceu. Talvez consiga rememorar algumas coisas que criam relevos em minha imaginação sobre o tempo que estive ali.
Recém chegado de Três Marias, cidade construída pela barragem e sua chegada, pouco descobri pelo pouco tempo que fiquei. É o Rio São Francisco em seu início, barrado, que trouxe dinheiro e assim desenvolveu um pedaço de terra em 40 anos. Dieter chama-a de “cidade sem infância”, por ter sido lá implantada, já aos moldes modernos, sem desenvolvimento, sem tempo. A não ser que pensemos em sua formação dispersa, um núcleo que concentra histórias. Com certeza é um espaço sem infância, sem rugosidades, sem acúmulo material de história. Parece-me que o início da construção foi determinante para seus dias atuais. Além desta frase óbvia, quero dizer que o capital surgido naquela época é o alimento para a cidade nos dias de hoje. Com o rendimento, nascem inúmeras lojas, vendas, mercados, etc. São apenas intermediários no serviço, gente que, segundo Marx, não gera valor. Assim, a cidade acontece através da diluição capitalista, da circulação e da alta rotatividade. Se é apenas o lucro da venda que aparece, há algo de estranho na prosperidade do lugar, ou nas teorias que a explicam. Afinal, é inegável que as pessoas têm dinheiro, este advindo quase que exclusivamente do comércio, além de uma outra quantia vinda dos trabalhadores da barragem. Valor e dinheiro parecem poder caminhar independentemente, já que vivemos num mundo mais ilusório do que real e o dinheiro é a explicitação deste fato, um papel, ou um número em uma tela que move montanhas.
Às margens do Velho Chico vive-se da pesca e do transporte por voadeiras. Por toda parte explodem preocupações ambientais, claro que ligadas à qualidade de vida do homem. Em alguns casos, cai-se no outro oposto, que é a isolada reprodução da "natureza".
A esse respeito, quando visitávamos as grutas na região de Cordisburgo, pensei. A gruta do Maquiné possui uma impressionante infra-estrutura turística, com muitas alterações em seu interior, como pontes, cimento, iluminação e passagens. É feita aos moldes de um parque de diversões, como o ecoturismo atual. Porém, existem outras 300 grutas na região, pouco e às vezes nem conhecidas. Seria a solução construir fantasias que distraiam, enquanto a realidade permanece oculta para muitos? É uma possibilidade. Mas e os lugares únicos? E os alternativos? E a expansão? Esta é a mesma lógica das áreas de conservação, incluindo aí a exploração de matéria-prima. De qualquer forma, a maior parte está aberta e são minúsculas minorias que conseguiriam estar escondidos ou controlados, ainda que as metas do milênio sejam exatamente estabelecer uma relação saudável com o ambiente (transformado). Surgem com muita força grupos, pessoas, ONGs que se ocupam da cobrança das regras a serem seguidas.


Conversas

Na quarta-feira, conversamos com duas pessoas de vital importância. O primeiro, Padre Leite. Este sujeito possui um museu em sua casa, uma das maiores do Morro da Garça. Claro que vinha de uma família riquíssima fundada no comércio; uma venda que trazia dos centros, diversos produtos. Por mais que o trabalho estivesse voltado para a própria família, era nítida a importância histórica do lugar. Eram fotos, instrumentos, móveis, equipagens, conversas que traziam para os dias de hoje a vida de outrora. Num desenvolvimento progressivo e linear desta história, resgatar os passos anteriores é importantíssimo. Na verdade, ainda não sei exatamente o porquê, mas creio que é uma maneira de aprender com o que já foi, uma memória de futuro e, quem sabe, conseguir compreender o presente como processo. No mínimo serve para tardes tristes e nostálgicas.
Via-se que a modernização tem raízes antigas e a sua chegada vem com objetos: relógio de bolso, revólver, instrumento musicais, enfim, coisas que vêm de longe, das indústrias do velho mundo. Aí estava seu princípio, assim como os pequenos capitalistas, donos de venda. Mais do que ir para fora, é trazer de volta o que há lá fora. O emblema do homem honroso, virtuoso, que conhece o mundo e traz sua experiência para a pequenez de seus campos. Mas antes, que amplitude! A novidade é uma arma silenciosa, que emociona e envenena lentamente. São sempre pessoas respeitadas e o são também por serem estudadas. Vejo estes detalhes como aperitivos, que criam a fome de possuir e de, em última instância, fazer de seus lugares tão encantadores e fantásticos quanto a imaginação do que há do outro lado do morro.
A outra conversa, talvez a melhor de todas, foi com o professor de Biologia, Giovani, que vive, segundo suas palavras, num tênue limiar entre a realidade e a loucura. Mecânico por prazer, o homem foi além e aprendeu muito com as suas andanças pelo mundo. Preocupado com o tempo atual, tinha a questão da tradição, da simplicidade de vida, de outros valores além do reconhecimento financeiro e do entretenimento, da medicina popular em contraposição à educação informativa. Ao interesse dos jovens dirigido ao consumo, da produção e do consumo desenfreados, do desenvolvimento sustentável impossível, dos impactos naturais causados, em grande parte, pela ignorância e pelo desconhecimento. O fim da seleção natural, mas a força da resistência do meio, que naturalmente segura o desequilíbrio, a competição entre entretenimento e a educação e a falta de certezas, que não tem como dar chão nem respostas fundamentais aos alunos, a profissionalização acéfala e autômata do ensino, uma crise total. É uma pessoa que vive o sertão, ligado ao que está acontecendo, alguém que não reproduz informações, mas compõe seu pensamento.
Para extravasar, fomos mais tarde ao baile.


Pela ponte

Navegamos por imensidões de eucaliptos, gigantescas plantações, fonte de renda, combustível econômico que introduz no povo a vida urbana como possibilidade real, com toda a sua plástica envolvente.
Enquanto nos pequenos povoados as pessoas eram identificadas por suas histórias, afazeres, nomes e personalidades, na urbanidade a identidade é plástica e mutável, maleável e comprável. Talvez isto esteja relacionado à amplitude da vida cotidiana que girava em torno daqueles que se conheciam entre si e que agora se expande ilimitadamente, com fofocas sobre aqueles que são conhecidos, mas não fazem parte da vida cotidiana, não estão presentes e assim, qualquer acontecimento do mundo é uma preocupação para todos.
Ao viajarmos pelo sistema global, perdemos a praticidade, carregando todos os problemas do globo em nossos ombros. Será que vale o sacrifício? Talvez sim, já que o sistema econômico sustenta as transformações e as ações locais e vemos nitidamente que os lugares pequenos ou sobrevivem do turismo, artesanato, ou da produção de matéria-prima, evidentemente sempre dependentes do fluxo e da circulação de capital vindos de fora da cidade.
Ao mesmo tempo que os antigos modernos entram no interior, a expansão urbana, as facilidades dos transportes e da terceirização, “J.I.T.”, preserva-se um modo de vida bastante diferente da metrópole, com relações muito mais humanas e pessoais. Acredito que São Paulo do começo do século XX também fosse assim. Podemos pensar que são problemas populacionais e a cidade grande só funciona transformando cada um em cifra, para construir uma lógica que flua. A velocidade só existe num sistema objetivo, sem dúvidas, que só é possível com o império da razão, concretizada na técnica maquínica. Deus me livre! E o resto?

P.S.: Esse texto foi resultado da formalização do diário de uma viagem de campo ao interior mineiro, na região acima de Belo Horizonte até as margens do Rio São Franciso.

19 de julho de 2007

Transvaginação

Durante um enorme bocejo, o maior da vida, virou do avesso e começou a se expandir. Ao mesmo tempo em que o que brotava ia circularmente escorregando para trás, o que estava dentro brotava e ia, em crescimento constante, seguindo o fluxo do passado. Essa massa obesa e linda é leve, não pesa nada, ao mesmo tempo que tem todo o peso do universo. Ela é o universo em transvaginação...